Rumo a uma paz desarmada e desarmante

🌿 Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026

“A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence”.

No início de um novo ano, marcado por desafios globais e inquietações locais, o Papa Leão XIV oferece à Igreja e ao mundo uma Mensagem para o Dia Mundial da Paz que é, ao mesmo tempo, um apelo à conversão e um convite à esperança. Com o tema “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”, o Santo Padre propõe uma leitura profundamente evangélica da realidade atual, iluminada pela saudação pascal de Cristo Ressuscitado: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19).

Esta saudação, longe de ser uma fórmula piedosa, é apresentada como uma palavra eficaz, capaz de transformar quem a acolhe. Segundo o Papa a paz cristã não é uma ideia abstrata, mas uma presença viva que deseja habitar-nos, alargar a nossa inteligência e resistir à violência com a força suave da luz. “A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena ‘basta!’, à paz suplica-se ‘para sempre’”.

🕊️ A paz como caminho e presença

“Em 2024, as despesas militares mundiais aumentaram 9,4%, atingindo 2,72 mil milhões de dólares.”

Antes de ser um objetivo político ou diplomático, a paz é um caminho espiritual que se percorre com humildade, perseverança e coragem. Quando não é experimentada, guardada e cultivada, a paz dá lugar à agressividade — uma agressividade que se infiltra na vida familiar, nas relações sociais e nas estruturas políticas. O Papa alerta para este contágio da violência, que transforma a ausência de preparação para a guerra numa culpa social, como se o único modo de garantir segurança fosse estar sempre pronto para reagir com força.

Neste contexto, Leão XIV denuncia com clareza a irracionalidade da corrida aos armamentos e da dissuasão nuclear, que encarnam uma lógica de medo e domínio, em vez de confiança, justiça e direito. “A força dissuasiva do poder encarna a irracionalidade de uma relação entre os povos baseada no medo e na força”. Esta crítica é sustentada por dados alarmantes: em 2024, as despesas militares mundiais aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, atingindo 2,72 mil milhões de dólares — cerca de 2,5% do PIB global. Esta tendência revela uma escalada contínua e preocupante, que desvia recursos da promoção da paz, da justiça social e do cuidado da casa comum.

🔥 A denúncia profética e o despertar das consciências

“Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se do desejo de domínio e procurou viver em harmonia com todos.”

O Papa não se limita à análise geopolítica. Ele propõe uma denúncia profética das forças económicas e financeiras que empurram os Estados para a lógica da guerra. “É preciso denunciar as enormes concentrações de interesses privados que alimentam esta direção”. Mas essa denúncia, por si só, não basta. É necessário promover o despertar das consciências, cultivar o pensamento crítico e educar para a paz.

Neste sentido, Leão XIV recupera a figura de São Francisco de Assis, apresentada na encíclica Fratelli tutti como modelo de paz interior e social. Num mundo marcado por muralhas, torres de vigia e guerras sangrentas, Francisco escolheu ser um dos últimos, libertou-se de qualquer desejo de posse e procurou viver em harmonia com todos. Esta inspiração franciscana atravessa toda a Mensagem, propondo uma espiritualidade da paz que se traduz em gestos concretos de escuta, acolhimento e reconciliação.

🤝 O papel dos fiéis: testemunhas vivas da paz

Para o Papa, os fiéis têm um papel essencial na construção da paz. Os cristãos devem refutar ativamente, com a sua vida, todas as formas de violência que obscurecem o Santo Nome de Deus. Isso implica uma vida coerente, uma espiritualidade ativa e uma abertura ao diálogo ecuménico e inter-religioso. A paz não se constrói apenas com tratados — a paz constrói-se com relações humanas autênticas, com comunidades que se tornam “casas de paz”, onde se aprende a hospitalidade desarmada do diálogo, onde se faz justiça e se cultiva o perdão.

Este caminho exige criatividade pastoral, capaz de mostrar que a paz não é uma utopia, mas uma possibilidade real, quando se vive com fidelidade o Evangelho. A paz cristã é desarmada e desarmante — não se impõe pela força, mas transforma pela ternura, pela escuta e pela perseverança.

🌱 A paz começa no coração

“Cada comunidade deve tornar-se uma ‘casa de paz’, onde se aprende a hospitalidade desarmada do diálogo.”

A Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026 é um convite à conversão pessoal e comunitária. Num tempo marcado por polarizações, medos e conflitos, o Santo Padre propõe uma paz que começa no coração, se estende às relações humanas (familiares e sociais) e se traduz em escolhas políticas e sociais corajosas.

Somos chamados a ser sentinelas da paz, promotores de uma cultura do encontro e testemunhas da esperança. Oxalá cada comunidade cristã se torne uma casa de paz, onde se aprende a escutar, a acolher e a transformar o mundo.

A paz não é ausência de guerra — a paz é presença ativa de justiça, misericórdia e fraternidade. E essa paz, como nos recorda o Papa, deseja habitar-nos. Saibamos nós acolhê-la.

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