A todas as pessoas de boa vontade

No meio do caos que estamos a viver, com duas grandes guerras a desenrolarem-se aos nossos olhos, além de todas as outras que continuam ativas, mas das quais pouco ou nada se diz; no meio de um receio cada vez mais real do aumento dos atentados terroristas ‘nos nossos territórios’ e já não só em sítios que, apesar de tudo, parecem estar mais distantes; no meio de grande agitação social no nosso país em setores tão importantes como o da saúde, da educação, da justiça, da habitação, para nomear só alguns; no meio de tudo isto e de muitas mais coisas, passou quase desapercebida a publicação, no passado dia 4 de outubro, dia de S. Francisco, da Exortação Apostólica Laudate Deum.

Exortação Apostólica Laudate Deum
Novo Exortação Apostólica do Papa Francisco, apresentada, a 4 de outubro de 2023, no dia de São Francisco de Assis.

É verdade que se trata de um texto pequeno; é verdade que não traz tanta novidade assim, em relação ao que se diz e partilha na Laudato si’; é verdade que a temática até está na moda e, de um modo geral, as pessoas até já julgam saber antecipar o que a esse propósito se possa dizer; é verdade tudo isto e muito mais, mas, apesar de tudo, julgo que esta Exortação, e, sobretudo, a convocatória que contem, é mesmo muito importante, não podendo ser ignorada.

Logo no início o próprio papa diz a razão por que a escreveu:

Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato si’, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura.

LD, 2

Não estamos mesmo a reagir de modo satisfatório e por isso o Papa insiste:

Duma vez por todas acabemos com a atitude irresponsável que apresenta a questão apenas como ambiental, «verde», romântica, muitas vezes ridicularizada por interesses económicos. Admitamos, finalmente, que se trata dum problema humano e social em sentido amplo e a diversos níveis. Por isso requer-se o envolvimento de todos.

LD, 58

Porque estamos perante um desafio global, porque é necessário o envolvimento de todos, esta Exortação é dirigida a todas as pessoas de boa vontade, crentes e não crentes, convocando-as a uma ação urgente.

Nela reconhecemos o diálogo entre as várias racionalidades e sabedorias com que podemos e devemos refletir estas questões. Por isso nela ecoam a voz das ciências naturais, das ciências sociais e humanas, da filosofia, da teologia, da ética, dando claramente a entender que só no exercício desse diálogo poderemos lidar com os desafios que enfrentamos.

Por isso nela se denuncia, de um modo claro e inequívoco, o crescente paradigma tecnocrático, a partir do qual se olha para o planeta como um objeto de exploração, de utilização desenfreada e de ambição sem limites (cf. nº 25).

Por isso nela se alerta para o perigo da concentração da riqueza e do poder na mão de poucos (cf. nº 23).

Por isso nela se refere a fragilidade da política internacional que não tem sabido, mas também não tem querido, tomar as atitudes necessárias, sendo, por isso, necessário redesenhar o multilateralismo, de modo a possibilitar a adoção de novos procedimentos, uma vez que aquilo que tem sido feito não se tem revelado suficiente nem eficaz (cf. Cap. 7).

Por isso nela se constata que, apesar de alguns avanços e conquistas, é necessário definitivamente mudar de hábitos e de estilos de vida, interpelando todos os intervenientes da COP 28, a realizar no fim deste ano no Dubai, a serem estrategas capazes de pensar mais no bem comum e no futuro dos seus filhos, do que nos interesses de alguns continentes, países ou empresas (cf. nº 60)


Porque “tudo está interligado”, porque “ninguém se salva sozinho” (cf. nº 19) é necessário e urgente uma visão mais alargada, capaz de perceber que a situação que estamos a viver não tem a ver apenas com a física ou a biologia, mas também com a economia e o nosso modo de a conceber, pois a lógica do máximo lucro ao menor custo, disfarçada de racionalidade, de progresso e de promessas ilusórias, tem tornado impossível qualquer preocupação sincera com o cuidado da casa comum e com o cuidado pela promoção dos descartados da sociedade (cf. nº 31).

Muito do que é dito no contexto desta Exortação acerca da crise climática pode muito bem aplicar-se às situações aludidas no início destas linhas, e também por isso me pareceu oportuno referi-lo.

E para os que se dizem cristãos, acresce ainda o compromisso que decorre da própria fé, defendendo o valor peculiar e central do ser humano, no meio do maravilhoso concerto de todas os seres criados por Deus, com os quais formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde (cf. nº 67).

Nesse sentido, e ao contrário do que por vezes se tem afirmado em alguns setores, mesmo dentro da Igreja católica, o verdadeiro Louvor a Deus pressupõe e exige o cuidado pela casa comum e pelo humano comum.

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