Coimbra celebrou os 10 anos da Laudato Si’ e caminhou pela paz

No dia 19 de setembro de 2025, no âmbito do Tempo da Criação, o Arciprestado Coimbra Urbana convidou toda a cidade a celebrar os 10 anos da encíclica Laudato Si’, no Penedo da Meditação — agora também Espaço Laudato Si’, após a primeira fase da sua reabilitação.

Às 18h, teve lugar o diálogo “Paz com a Criação: sementes de esperança”, moderado por Sónia Neves, com a participação de Pedro Bingre do Amaral e Miguel Panão.

Seguiu-se, às 19h, a Eucaristia pelo Cuidado da Criação, concelebrada pelos padres do arciprestado e presidida por Dom Virgílio.

Diálogo Paz com a Criação: sementes de esperança

A jornalista Sónia Neves, diretora do Correio de Coimbra, abriu o Diálogo contextualizando o “Tempo da Criação” que está a decorrer, de 1 de setembro a 4 e outubro, período ecuménico de oração e ação pelo cuidado da casa comum, que este ano assinala os 10 anos da encíclica Laudato Si’, os 800 anos do Cântico das Criaturas e os 1700 anos do Concílio de Niceia. Sónia Neves apresentou a encíclica como uma “criança de dez anos” — já com identidade formada, influente em conferências climáticas e movimentos de base, mas ainda em fase de crescimento e enfrentando resistências.

O diálogo contou com dois convidados de peso. Pedro Bingre do Amaral, professor e investigador nas áreas do ambiente, ordenamento do território e ecoturismo, presidente da Liga Portuguesa do Ambiente — a primeira associação ambientalista a nível ibérico — e defensor de causas cívicas e do movimento escutista. Ao seu lado, Miguel Panão, docente na área da engenharia mecânica na Universidade de Coimbra, autor de obras sobre a experiência do tempo e colaborador regular em reflexões sobre cibercultura e espiritualidade.

Sónia Neves introduziu os dois convidados destacando as suas áreas de atuação e convidando-os a refletir sobre o legado e o futuro da encíclica.

  • Diálogo Paz com a Criação: sementes de esperança
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  • Miguel Panão
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  • Pedro Bingre do Amaral
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  • Pedro Bingre do Amaral
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  • Pedro Bingre do Amaral com Sónia Neves

Pedro Bingre do Amaral: ética ambiental com raízes espirituais

Pedro Bingre do Amaral iniciou a sua intervenção com um tom pessoal e caloroso, revelando o prazer de estar presente e de partilhar as suas reflexões num espaço que valoriza a criação. Ligou de imediato o tema ao seu percurso no movimento ambientalista como Presidente da Liga Portuguesa do Ambiente e ao trabalho como docente de ética ambiental, sublinhando que a encíclica Laudato Si’, publicada há dez anos, foi incorporada de imediato nos seus programas de ensino. Para ele, este documento não é apenas um texto religioso, mas um apelo ético e universal que influenciou debates sobre biodiversidade, políticas ambientais e a própria forma como se pensa a relação entre fé e ecologia.

A partir daí, constrói um argumento sólido sobre a necessidade de uma ética ambiental enraizada em princípios universais, que identifica na mensagem de Jesus Cristo: igualdade, dignidade e reciprocidade entre todos os seres humanos. Recorda que outras confissões religiosas — budistas, muçulmanas, cristãs luteranas — já tinham assumido posições ambientais antes da Igreja Católica, que demorou a pronunciar-se. Para ele, essa demora não diminui a importância do passo dado com Laudato Si’, que inscreve a preservação da “casa comum” no coração da ética cristã.

Analisa a evolução do movimento ambientalista em três “ondas”. A primeira, centrada na preservação da natureza e na ética ambiental, tinha um carácter mais consensual. A segunda, nos anos 60, surge associada à contracultura, a novas espiritualidades — algumas anticristãs ou neopagãs — e a ideologias que a Igreja via como incompatíveis com a fé. Essa fase, embora rica em mobilização, afastou parte do mundo cristão. A terceira onda, nos anos 90, recupera influências cristãs, mas foca-se sobretudo nos direitos dos animais dotados de sentimentos, por vezes excluindo os ecossistemas da consideração ética. Algumas correntes extremistas chegaram a justificar práticas como a eutanásia de fetos humanos sem sistema nervoso desenvolvido, o que agravou a perceção negativa da Igreja sobre o ambientalismo.

O orador defende que é possível — e necessário — separar o núcleo ético do ambientalismo de ideologias adventícias. Preservar a “casa comum” é um dever moral que pode ser plenamente integrado numa matriz cristã, sem necessidade de adotar doutrinas contrárias à fé. Sublinha que Laudato Si’ é intelectualmente robusta e tecnicamente impecável, capaz de convencer crentes e não crentes, sustentada por argumentos científicos, filosóficos, económicos e sociais.

Recorre a imagens e metáforas para aprofundar a sua mensagem. No Caminho de Santiago, por exemplo, aprendeu que cuidar da criação passa por cuidar das pessoas que encontramos — sejam elas frágeis, silenciosas, zangadas ou curiosas. Afirma que todos somos parte do universo, não observadores externos, e que Deus se manifesta nos encontros humanos. Usa a metáfora das ondas do oceano para mostrar que, apesar da perceção de individualidade, somos manifestações de uma mesma realidade.

A sua crítica à sociedade contemporânea é incisiva: isolamento, consumismo excessivo e perda de ligação comunitária e espiritual. Denuncia a lógica de trabalhar em empregos de que não se gosta para comprar coisas de que não se precisa, alimentando um ciclo insustentável. Aponta que mesmo soluções tecnológicas — reciclagem, eficiência energética — não resolvem se mantivermos padrões de consumo voraz. Para ele, os problemas ambientais têm raízes espirituais e não apenas técnicas; é preciso que as pessoas encontrem sentido na vida fora do consumo, valorizando o trabalho útil e duradouro.

Na parte final, oferece uma reflexão geracional. Observa que a geração nascida entre 1945 e 1960 foi a última em que a maioria frequentou catequese. As seguintes foram-se afastando da educação religiosa, e muitas das mais recentes cresceram sem qualquer formação espiritual. No entanto, nota um retorno intuitivo dos jovens a práticas mais simples e analógicas — música acústica, objetos físicos, contacto direto — como reação ao excesso de digitalização, individualismo e isolamento. Para ele, este regresso ao básico é um sinal de esperança: depois de décadas de afastamento, há vontade de reconstruir relações e valores comunitários. Conclui que cuidar da “casa comum” implica não só preservar o ambiente, mas também restaurar o tecido humano e espiritual que dá sentido à vida.

Miguel Panão: desacelerar, reaprender e cuidar das relações

Miguel Panão começa por refletir sobre a expressão “casa comum”, confessando que inicialmente não compreendia totalmente o conceito. Associa-o mais à ideia de comunidade e fraternidade entre todas as criaturas, do que a uma mera estrutura física. Introduz o conceito de “espírito da Terra”, que interpreta como a possibilidade de fazer uma experiência de Deus através da criação. Para ele, contemplar uma paisagem ou uma árvore pode ser muito mais do que um ato estético: é um encontro espiritual.

Defende que cuidar da casa comum significa cuidar das relações — entre pessoas e com o planeta. Se tudo está interligado, o mais importante é cuidar da relação, pois não é possível cuidar de alguém sem cuidar da relação com essa pessoa. Aponta que a vida frenética impede esse cuidado, exigindo desacelerar para recuperar a consciência e a qualidade das interações.

Estrutura a sua proposta de mudança em três fases. A primeira é a Preparação: desacelerar, ser suficiente e questionar hábitos. Dá exemplos concretos, como conduzir à velocidade permitida e sentir a diferença, ou resistir ao impulso de comprar algo desnecessário. A segunda fase é a Maturação: desaprender preconceitos, aprender e reaprender o contacto com a realidade fora das “quatro paredes” e dos ecrãs. Reconhece que muitas pessoas passam a maior parte do tempo em espaços fechados e virtuais, e que é preciso retomar o contacto com o mundo físico e com a natureza. A terceira fase é a Relação/Missão: sair da zona de conforto, “incomodar-se com a verdade” e entregar-se a Deus e à criação. “Incomodar” aqui não significa perturbar, mas despertar curiosidade, provocar exame de consciência e motivar mudança.

Explora o conceito de “sensibilizar”, que na engenharia significa aumentar a capacidade de resposta. Aplicado à vida, significa estar mais aberto e recetivo, permitindo que pequenas ações tenham grande impacto. Para ele, sensibilizar é essencial para cuidar da casa comum, pois quando estamos sensíveis, basta pouco para alcançar muito; quando estamos insensíveis, é preciso muito esforço para conseguir qualquer coisa.

Ao longo do discurso, combina referências teológicas, imagens da natureza e conceitos técnicos, criando pontes entre ciência, filosofia e espiritualidade. Reconhece que a mudança exige consciência, desaceleração, abertura ao novo e entrega espiritual. Conclui afirmando que cuidar da casa comum é cuidar de uma “comunidade de amor” que está sempre a aprender. Para ele, essa comunidade não é estática: é um organismo vivo que se transforma à medida que as relações se fortalecem e que a ligação com a criação se aprofunda.

E termina com um trocadilho: CASA – Comunidade de Amor Sempre Aprender.

Um final em oração

Às 19h, a celebração prosseguiu com a Eucaristia pelo Cuidado da Criação, concelebrada pelos padres do Arciprestado Coimbra Urbana e presidida pelo bispo de Coimbra, Dom Virgílio. Utilizou-se o novo formulário litúrgico Missa pro custodia creationis, recentemente integrado no Missal Romano, ligando explicitamente a liturgia ao compromisso de conversão ecológica integral inspirado pela Laudato Si’. O ambiente, marcado por cânticos e momentos de silêncio, reforçou a ligação entre fé e cuidado da criação.

O encontro encerrou com um convite à participação na Caminhada “Passos pela Paz”, que se realizaria a 21 de setembro, organizada pelo Círculo Laudato Si’ Santo António dos Olivais. Um percurso com paragens para sentir, refletir e rezar, inspirado nas palavras do Papa Francisco — “A guerra é sempre um absurdo e uma derrota” — e do Papa Leão XIV — “É preciso desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra”.

  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação, concelebrada pelos padres do Arciprestado Coimbra Urbana e presidida pelo bispo de Coimbra, Dom Virgílio
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação
  • Eucaristia pelo Cuidado da Criação

Caminhada Passos pela Paz

No dia 21 de setembro, das 14h30 às 18h00, decorreu a Caminhada Passos pela Paz, com participação de algumas dezenas de pessoas, dos 2 aos 90 anos, ligando gerações numa causa comum.

A caminhada organizou-se em 7 estações com uma dinâmica muito própria: uma intervenção inicial de contexto do lugar e sua relação com o tema, uma leitura de um excerto da Laudato Si’ e uma oração / reflexão apropriada ao local e ao tema.

Caminhámos desde o Penedo da Meditação, primeira estação com o tema “a luz” e prosseguimos até ao mosteiro de Celas, dando-nos conta de que não há uma passadeira para atravessar a Afrânio Peixoto. Valeram-nos os escuteiros para parar o trânsito.

No Mosteiro de Celas o tema foi “os seres vivos e a biodiversidade”. Esta estação foi dinamizada pelos escuteiros do Agrupamento 109, cuja sede é, precisamente, neste local.

Atravessámos o Jardim da Sereia pela parte superior e parámos junto à fonte da nogueira ou fonte velha, que muitos desconheciam, com o seu tritão segurando um golfinho. O tema era naturalmente “a água”. Esta estação recordou-nos que a água é dom, a água é direito, a água é vida.

Chegámos aos Arcos do Jardim, Largo João Paulo II. Nesta estação o tema era “a mãe Terra” e seria animada pelos jovens, mas como andavam todos ocupados com outras tarefas, foi preciso improvisar e socorremo-nos de duas mães presentes e duas crianças.

E rumamos até à Sé Nova para refletir sobre o Jubileu da Esperança e sua relação com o tema “a humanidade cuidadora da criação”, onde fizemos uma foto de grupo abraçando a cruz jubilar.

Agora já a caminho do Seminário Maior, atravessámos o Jardim Botânico, onde o tema era “o ar”, para que cuidemos do ar que partilhamos como quem cuida do dom mais precioso. Esta estação foi animada simbolicamente por uma avó, um pai e uma neta.

E terminámos no miradouro do baloiço do Seminário Maior de Coimbra, contemplando o fim tarde luminoso sobre o rio Mondego. Aqui o tema era “o descanso” do sétimo dia.

O descanso de Deus no sétimo dia aponta para algo ainda maior: o oitavo dia, o dia sem ocaso, a plenitude escatológica em que toda a criação será renovada. Se o sétimo dia é memória e celebração, o oitavo é promessa e esperança. Aqui, diante do Mondego e do horizonte que se abre, imaginámos esse dia em que o tempo se cumpre e Deus será “tudo em todos” (1Cor 15, 28).

No final da nossa caminhada, unimo-nos a São Francisco de Assis, que há 800 anos compôs o Cântico das Criaturas. Francisco, homem de paz e de simplicidade, soube ver cada elemento da criação como irmão e irmã: o sol, a lua, a água, o fogo, a terra e até a irmã morte. O seu cântico é um hino de gratidão e de reconciliação — com Deus, com os outros e com a própria natureza.

Ao regressarmos à vida de todos os dias, levamos connosco a certeza de que somos chamados a ser cuidadores da obra de Deus e artesãos de paz — até que chegue o oitavo dia, o dia sem fim.

  • Caminhada Passos pela Paz: Penedo da Meditação - a luz
  • Caminhada Passos pela Paz: Penedo da Meditação - a luz
  • Caminhada Passos pela Paz: Mosteiro de Celas - a biodiversidade
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim da Sereia - a água
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim da Sereia - a água
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim da Sereia - a água
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim da Sereia - Fonte da nogueira: a água
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim da Sereia - Fonte da nogueira: a água
  • Caminhada Passos pela Paz: Arcos do Jardim - a mãe Terra
  • Caminhada Passos pela Paz: Arcos do Jardim - a mãe Terra
  • Caminhada Passos pela Paz: Arcos do Jardim - a mãe Terra
  • Caminhada Passos pela Paz: Sé Nova - a humanidade
  • Caminhada Passos pela Paz: Sé Nova - a humanidade - Foto de grupo com a cruz jubilar
  • Caminhada Passos pela Paz: Jardim Botânico - o ar
  • Caminhada Passos pela Paz
  • Caminhada Passos pela Paz: Seminário Maior de Coimbra - o descanso

Donativos para Gaza

Os donativos angariados a troco da oferta do chapéu e camisola Laudato Si’, revertem a favor da Igreja da Sagrada Família (paróquia latina do Patriarcado Latino de Jerusalém), na Cidade de Gaza, cujo pároco é o Pe. Gabriel Romanelli, do Instituto do Verbo Encarnado.

Todos podem contribuir para esta causa.

Todos os donativos recebidos para o Pão de Santo António,
até 30 de setembro de 2025,
serão canalizados para esta causa.

PÃO DE SANTO ANTÓNIO

Fundo de Solidariedade | Ajuda aos pobres

IBAN: PT50 0018 000318634709020 67

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