Não vos dais conta? Somos jardineiros e não flores!
coincidências na vida que nos obrigam a refletir sobre o rumo do nosso caminho e das nossas escolhas, pessoais e coletivas.
No retiro em Fátima, dos Frades Menores Conventuais, (8 a 12 de fevereiro), o pregador escolheu um tema inesperado: “Hortus inconclusus. Exercícios de jardinagem franciscana”.
À primeira vista, parecia um simples curso de jardinagem com toque franciscano.
Mas não. Partindo do jardim do Éden, do jardim dos amores do Cântico dos Cânticos, da tradição monástica que fez da horta um “Paraíso” de trabalho e transformação, e chegando a Francisco de Assis, que abriu a horta ao mundo como espaço de fraternidade, ele ajudou-nos a redescobrir a nossa vocação: “limpar terrenos e habitar a história para contemplar e fazer contemplar o que o Senhor criou”.
Enquanto mergulhávamos nas meditações que atravessavam séculos de espiritualidade cristã, monástica e franciscana — iluminadas pelas imagens do Cântico dos Cânticos, onde o amado e a amada se procuram, se perdem e se reencontram — lembrei-me dos versos inscritos no Aqueduto de São Sebastião, em Coimbra: “Escutai! Um vento morreu. Não vos dais conta? Somos jardineiros e não flores!”
Quantas vezes passamos à frente desta inscrição sem perceber a responsabilidade que carregamos perante um mundo em constante transformação? Nestes dias em que a nossa terra ferida geme sob as intempéries, torna-se urgente escutar a sua dor — e também a dor humana.
Esperamos que “o vento morra” e a chuva cesse, como no dilúvio do Génesis. Mas Deus “jardineiro”, que cultivou o mundo e confiou ao ser humano a tarefa de nomear e cuidar da criação, agora precisa de nós.
Etty Hillesum, no campo de concentração de Auschwitz, escreveu: “Quando sair daqui, tenho que ajudar Deus a tornar mais belo o nosso mundo”. Hoje, mais do que nunca, Deus precisa de nós, precisa de jardineiros para reconstruir, cultivar e cuidar do seu jardim e dos seus filhos.