Sorrir ao amor autêntico

Se alguém estivesse à beira da morte ou fosse condenado a prisão perpétua
e lhe fosse anunciado: “Eis que acaba de chegar alguém que irá salvar-te!”.
Porventura, não irias exultar de alegria?
Não darias pulos de contentamento? Claro que sim!
Por isso, regozijemo-nos, nós também, no íntimo da consciência
e no amor autêntico, porque hoje nasceu para nós o Salvador,
aquele que nos libertará da escravidão!

Sermões, de Santo António, Sermão na Natividade do Senhor, 9

O Natal não é romântico. Santo António dá voz à sua clara e vibrante imaginação, para chamar a nossa atenção para o nascimento de Jesus, comparando-o simbolicamente a um resgate realizado in extremis, no último momento, quando parecia que já não havia mais nada a fazer.

A tua vida está prestes a perder-se e alguém aparece e arrebata-te do abismo mortal. E isso coloca-te novamente de pé. Estás prestes a ser condenado a uma sentença pesada e eis que alguém chega e te liberta do cativeiro. E devolve-te ao voo airoso da liberdade.

Talvez não apreciemos esta forma de falar sobre o Natal, pouco poética.

Não há anjos a voar, nem luzes a brilhar, nem melodias em movimento ou estrelas cintilantes. Nenhum romantismo vago e sentimental. Santo António não aprecia muito as efusões emocionais; vai direto ao assunto.

Em primeiro lugar, lembra-nos que estávamos em perigo, em grande perigo! Depois chega alguém que, por sua própria iniciativa, nos segura e nos salva.
Este é o Natal: a corrida que Deus quis fazer, para vir ao nosso encontro para nos resgatar.

Qual era o perigo do qual fomos resgatados?

Um desejo insano, uma ganância pertinaz e teimosa: procurar a salvação sozinhos, sem qualquer hipótese de a conseguir.

É a tentativa de nos agarrarmos àquilo que é cativante e chamativo, pensando que também nós poderemos ser grandes e brilhantes.

Mas, na verdade, continuamos sempre insatisfeitos. Queremos sempre mais. E assim, ficamos sufocados, sem ar, completamente tontos.

Diante de tanto vazio, uma doce melodia natalícia, que acaricia os sentidos, poderia aliviar o gelo do coração. Talvez, pelo menos temporariamente.

Mas assim que a doçura se desvanece voltamos à corrida mortífera para ter mais, dominar mais, valer mais.

Como alcançar, então, a paz do coração nessa corrida louca?

Precisamos mesmo de um Deus que, ao tornar-se pequeno, ao descer para um pequeno berço, nos desperte do deslumbramento da salvação que procuramos e nos direcione para o único lugar de salvação: a pequenez da vida comum, feita de relações que sabem recomeçar, feita da superação da vingança, da aceitação mútua, quantas vezes dura e cansativa.

É verdade: estas coisas não despertam comoção, mas podem abrir-nos ao sorriso, ao sorriso do “amor autêntico”, diz Santo António. Vejamos bem: “autêntico”, não romântico. Há uma grande diferença entre um e outro!

Talvez não apreciemos esta forma de falar sobre o Natal, pouco poética.
Santo António lembra-nos que estávamos em grande perigo e o próprio Deus quis vir ao nosso encontro para nos resgatar.

Foto da capa: A Natividade de Jesus como parte da Santíssima Trindade com São Francisco e Santo António, de Giovanni della Robbia (1469-1529), Capela de Santa Maria dos Anjos, La Verna, Foto de Gunnar Bach Pedersen, 2007, Commons Wikimedia.

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