Na semana passada, acompanhei até à casa de uma senhora um paroquiano que manifestou a sua disponibilidade para visitar e levar a comunhão a pessoas idosas e doentes da nossa comunidade.
A D. Maria José tem 91 anos, ficou quase completamente sem vista, vê apenas sombras, mas reconhece as pessoas pela voz e só pela voz deposita confiança. E vive sozinha! Quer dizer, sozinha mesmo não está, porque tem a companhia da Violeta, uma cadela muito carinhosa e um bocado ciumenta. Mas ao longo da conversa, percebe-se que tem outras companhias: para além de Jesus, também a Virgem Maria e São José, de que é devotíssima desde o dia do seu Batismo.
Deixei o nosso voluntário em sua companhia e fui para outros “afazeres”. No final da tarde, ao chegar a casa, liguei para o meu paroquiano a perguntar como correra o encontro com a D. Maria José. “Frei – respondeu-me – ainda estamos aqui na conversa! Somos amigos”. Tinham passado duas horas.
Para além das enfermidades mais graves que podem aparecer em qualquer momento da nossa vida, há uma que se associa muito com a idade: a solidão dos idosos. A primeira unção de que eles precisam é mesmo uma presença amiga: alguém que olha para eles, alguém que escuta. Aliás a Maria José é bastante surda e, por isso, gosta de falar muito, sobretudo contar as peripécias da sua vida. Uma vida de sacrifícios e de aventuras, até de patas de lobo por cima do seu corpo aos 7 anos, na Beira Alta.
Diz o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundial do Doente (11 de fevereiro de 2025): “Quantas vezes descobrimos o amor inclinando-nos sobre quem tem necessidades! Ou seja, apercebemo-nos de que todos juntos somos “anjos” de esperança, mensageiros de Deus, uns para os outros: doentes, médicos, enfermeiros, familiares, amigos, sacerdotes, religiosos e religiosas”.
Quantas pessoas à nossa volta, em casa, no hospital ou num lar, precisam desta ‘unção’ para aliviar a dor? “É importante – diz ainda Francisco – saber captar a beleza e o alcance destes encontros de graça e aprender a anotá-los na alma para não os esquecermos”.
Grande desafio, não só para este ano jubilar: ousar “bater à porta” de quem vive só, na idade que avança e na fragilidade e vulnerabilidade de uma vida que é sempre preciosa.