In Memoriam do amigo Manuel Sérgio

Manuel Sérgio (1933-2025) foi filósofo, mestre e mentor, político, escritor, mas sobretudo um pensador que desafiou as fronteiras tradicionais do conhecimento. Sua vida foi uma busca constante para entender o ser humano em toda a sua complexidade, especialmente através do prisma do desporto.

Como filósofo, revolucionou a forma como entendemos o desporto. Para ele não era apenas uma atividade física ou competição, mas uma manifestação profunda da natureza humana: um fenómeno que envolve corpo, mente e espírito, uma expressão da nossa motricidade humana que revela muito sobre quem somos. Essa visão holística desafiou paradigmas e inaugurou o que ele chamou de “cientificação da motricidade humana”.

Escreveu numerosos livros e artigos que exploram a interseção entre desporto, filosofia, educação e ética. Títulos como “Para uma Epistemologia da Motricidade Humana” e “A Dimensão Ontológica do Desporto” são verdadeiros marcos que inspiraram estudiosos e profissionais a repensar suas práticas e conceitos. Manuel Sérgio defende que não há separação entre corpo e alma, pois somos uma unidade inseparável e o movimento é uma forma de expressão essencial dessa totalidade.

Manuel Sérgio colaborou com a revista Mensageiro de Santo António e eu tive o privilégio de ter longas conversas com ele, sobre os mais variados assuntos, a propósito e a despropósito dos artigos que escreveu. Nessas conversas tive a oportunidade de apreciar a profundidade da sua sabedoria, mas também a sua simplicidade e o seu calor humano. Foi assim que fiquei a saber que foi professor e mentor de treinadores como José Mourinho e Jorge Jesus, entre outros, influenciando as suas abordagens ao futebol e à formação dos atletas.

Os seus artigos e os seus poemas proporcionaram aos leitores do Mensageiro o contacto com temas complexos de uma forma acessível e profunda, sempre com um olhar crítico e humanista, sobre o fenómeno desportivo, a existência humana, a transcendência, as questões éticas, espirituais, sociais.

Como deputado na Assembleia da República (1991 – 1995), defendeu com paixão a importância do desporto na formação integral dos cidadãos e na construção de uma sociedade mais justa e saudável. Coerente com os seus princípios, lutou por políticas públicas que refletissem a sua crença na educação física como um direito e uma ferramenta de transformação social.

O pensamento de Manuel Sérgio continua profundamente atual, lembrando-nos que o desporto não é apenas competição, taças, medalhas e negócio, mas sobretudo autoconhecimento, superação pessoal e interação social. A sua filosofia convida-nos a repensar as nossas prioridades e a valorizar as experiências que enriquecem o espírito, fortalecem o corpo e promovem a cooperação e a solidariedade.

Ao realçar a dimensão humana do desporto, Manuel Sérgio abriu caminho para abordagens mais complexas e abrangentes, que reconhecem a importância do bem-estar integral dos indivíduos. As suas ideias vão para além do campo do desporto, ao considerarem outros aspetos fundamentais da existência, como a busca de significado, a importância das relações interpessoais e o desafio constante de nos tornarmos versões melhores de nós mesmos. Manuel Sérgio desafia-nos a uma reflexão profunda sobre o sentido da vida e o papel que cada um de nós desempenha na construção de um mundo mais humano, mais solidário e mais justo.

O seu último texto foi um artigo intitulado “O Nome da Rosa”, publicado a 21 de fevereiro de 2025, no jornal A Bola. Nele Manuel Sérgio faz uma reflexão sobre o romance de Umberto Eco, e, com a sua mestria habitual faz a ponte entre o romance de Umberto Eco e o desporto atual com palavras magistrais que vale a pena ler. Cito, com a devida vénia, alguns parágrafos do final desse artigo.

“Como se vê, o riso, o anedotário, a mordacidade intencional dos dissidentes, dos críticos, dos resistentes, dos heréticos, que se opõem a qualquer cartilha ortodoxa, escrita per omnia saecula saeculorum, é considerado um perigo pelos dogmáticos, pelos conservadores, pelas instituições envelhecidas. Há muitos séculos, como hoje. Por isso, se as Faculdades de Motricidade Humana, ou de Desporto, querem contribuir para o progresso do desporto em geral e do futebol em particular, têm de saber estremar o trigo do joio: o joio dos que dizem hoje, ipsis verbis, o que já aprenderam há muito tempo, numa palavra só — os sebenteiros; o trigo dos que, humildemente, fazem suas as palavras de Sócrates: «Só sei que nada sei». O futebol (e o desporto em geral) precisa dos cursos superiores de Desporto (e até de cursos de treinadores), desde que deles ressalte um saber onde a maior saliência do magistério dos professores seja a insatisfação e a dos alunos a vontade da criação de um território, arvorado em independente, aberto aos heréticos de quem o Ter e o Poder desconfiam.

No meu modesto entender, o futebol, como desporto que é, surge como um dos aspetos da motricidade humana (que assim ouso definir: a energia para o movimento intencional e solidário da transcendência, ou superação) e, como tal, é no âmbito das ciências sociais e humanas que deverá procurar-se o seu paradigma e a sua metodologia. Quem ainda não entendeu isto, duvido que possa transformar-se num grande treinador de futebol”.

in “A Bola”, 21 de fevereiro de 2025 (ligação para o artigo completo)

Breve biografia de Manuel Sérgio

Manuel Sérgio Vieira e Cunha nasceu a 20 de abril de 1933, em Lisboa. Foi filósofo, professor, educador, ativista, escritor e político. Amplamente reconhecido como o “pai” da Motricidade Humana, em Portugal, desenvolveu a “filosofia do desporto”, que considera o desporto como uma atividade humana integral e não meramente física.

Começou como funcionário no Arsenal do Alfeite tendo estudado, simultaneamente, Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Dedicou grande parte de sua vida ao ensino e ao pensamento na área do desporto, tendo sido um dos principais impulsionadores da inclusão do desporto como área de estudo e investigação no Ensino Superior. Lecionou em várias instituições, incluindo o Instituto Nacional de Educação Física (INEF) e a Faculdade de Motricidade Humana.

Em 2017, foi agraciado com a Comenda da Ordem da Instrução Pública pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Em 2019, a Universidade Católica Portuguesa fundou, em sua homenagem, a Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência

Faleceu a 19 de fevereiro de 2025, aos 91 anos. Seu legado vai continuar a influenciar o pensamento sobre o desporto e a educação física, em Portugal e no mundo.

Artigos de Manuel Sérgio