O Espírito de Assis: Caminho para a Paz

Completam-se, hoje, 27 de outubro de 2026, 40 anos do histórico encontro de Assis em que o Papa João Paulo II reuniu, a 27 de outubro de 1986, os líderes das diferentes religiões para rezar e jejuar pela PAZ.

“Nunca mais uns contra os outros, mas uns ao lado dos outros”. Foi o apelo de Leão XIV, no dia 28 de outubro de 2025, na conclusão dos três dias de encontro sobre a paz, organizados pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma, evocando o histórico .[1]

Quem de vós sabe onde se encontrava no dia 11 de setembro de 2001, dia do atentado das Torres Gémeas nos Estados Unidos? Já lá vão 25 anos! Com certeza lembramos o lugar, as atividades, as pessoas que nos rodeavam, no instante em que recebemos a notícia deste terrível acontecimento, que nos deixou apavorados e aterrorizados. Será que nos lembramos, com a mesma clarividência, do dia em que João Paulo II e os líderes religiosos, se encontraram em Assis, para rezar e jejuar pela Paz?

Foi um encontro que gerou aquele que, logo a seguir, foi chamado o “espírito de Assis”, e que o Papa Leão definiu «um momento histórico, uma viragem nas relações entre as religiões». E acrescentou: «No “espírito de Assis”, ano após ano, estes encontros de oração e diálogo continuaram e criaram um clima de amizade entre os líderes religiosos, acolhendo muitos pedidos de paz. O mundo hoje parece ter ido na direção oposta, mas nós recomeçamos a partir de Assis, daquela consciência da nossa tarefa comum, daquela responsabilidade pela paz». [2]

Hoje, 27 de outubro de 2026, em Assis, tem lugar o 40º aniversário deste evento, inserido como uma pérola preciosa no meio das comemorações dos 800 anos da morte de São Francisco. É oportuno, então, que nos perguntemos: «Para onde foi o espírito de Assis, que reunia representantes de diferentes religiões para “estarem juntos e rezarem”?».

«…quando jovens judeus correram para o palco para oferecer ramos de oliveira, em primeiro lugar aos muçulmanos, vi-me a limpar as lágrimas do rosto». Assim escreveu o cardeal francês Roger Etchegaray depois de ter participado no encontro inter-religioso convocado por João Paulo II a 27 de outubro de 1986. Esta imagem de jovens judeus a oferecer ramos de oliveira aos seus pares palestinianos inspira pensamentos de esperança, mesmo em tempos de atrocidades e desumanidade provocadas pelos semeadores do mal.

«Atrevo-me a dizer – acrescentou o Cardeal Etchegaray – que senti o coração do mundo a pulsar nesse dia. Um breve encontro numa colina, algumas palavras, alguns gestos, foram suficientes para que a humanidade dilacerada redescobrisse com alegria a unidade das suas origens».

Este tormento repete-se, hoje, e é compreensível que alguns se perguntem para onde foi o espírito de Assis. A questão torna-se ainda mais premente face à exploração da religião para fins políticos e para justificar o uso da violência: uma exploração que se alimenta da ignorância e da confusão.

Celebrar o aniversário do “espírito de Assis”, que inaugurou um diálogo de paz entre as religiões, significa alimentar teimosamente a esperança. É verdade, a ousadia profética desse dia encontra hoje rejeição e obstáculos, mas permanece mais viva do que nunca no coração dos homens e das mulheres que, por amor à verdade, se revoltam contra um poder que, “justifica a violência com a religião”.

O “espírito de Assis” opõe-se à violência com os gestos desarmados do diálogo, da oração e do perdão.

Trinta anos depois do evento de 1986, o Papa Francisco viajou para Assis em 2016 para o Dia Mundial de Oração pela Paz. Após orações de vários grupos religiosos em vários locais, “um ao lado do outro, um pelo outro”, o Papa proferiu um discurso que ecoava as palavras expressas pelos seus antecessores: «Nunca nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca poderá justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa, não a guerra!», Destacou, também, a importância do evento de 1986, a força motriz por detrás de «uma longa peregrinação que, passando por muitas cidades de todo o mundo, envolveu muitos fiéis em diálogo e oração pela paz; uniu sem confundir, dando origem a sólidas amizades inter-religiosas e ajudando a apaziguar muitos conflitos».[3]

O percurso do Papa Francisco com o “espírito de Assis” estruturou-se em volta de várias dimensões:

  • Paz e Diálogo, reunindo líderes de todas as religiões para, em conjunto, apelar ao fim dos conflitos.
  • Ecologia Integral: para o Papa Francisco, o “espírito de Assis” inclui indissociavelmente o cuidado com a nossa “Casa comum” (através da encíclica Laudato si’) ligando o respeito pela criação à fraternidade universal.
  • A Escolha dos Pobres, recordando a escolha radical de São Francisco de se despojar de todos os bens materiais, fundamento da sua espiritualidade.

Concluindo, quero lembrar novamente o Encontro Internacional da Paz, no Coliseu de Roma, a 28 de outubro de 2025, onde o Papa Leão XIV afirmou: «Recomecemos a partir de Assis», enquanto «o mundo hoje parece ter ido no sentido oposto». Recomecemos «a partir desta consciência da nossa tarefa comum, desta responsabilidade pela paz».[4]

Perante a “guerrilha” das redes sociais e do mundo digital, em que os algoritmos priorizam o ressentimento, o confronto e a oposição em detrimento da escuta, do diálogo e da tolerância, eis que o espírito de Assis deve entrar também nas redes sociais, numa linguagem desarmada, pacificadora, capaz de propor o bem e a amizade social.

As últimas palavras sobre o “Espírito de Assis:  caminho para a Paz”, quero ainda reservá-las na escuta de quanto o Papa Leão XIV disse aos jovens reunidos em Assis no passado dia 6 de Agosto: «Estamos em Assis, uma cidade para onde há séculos sobem muitos peregrinos – hoje também nós! –, porque aqui tudo sussurra que a nossa vida pode transformar-se, irradiar luz, reparar o mundo (…) Neste sentido, sugeri no início da minha primeira Encíclica [Magnifica humanitas] que «cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que “o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”. Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude» (Magnifica humanitas, 1).[5]

Como São João Paulo II, há 40 anos, e o Papa Leão XIV, hoje, em Assis, rezamos juntos a oração erroneamente atribuída a São Francisco, sendo um texto do século passado, mas que bem expressa de maneira singular o “espírito de Assis”.

Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe.
É perdoando que se é perdoado.
E é morrendo que se vive para a vida eterna.


[1] Cf. LEÃO XIV, Discurso no Encontro Internacional da Paz, Coliseu, 28.10.2025

[2] Ibidem

[3] Cf. https://www.vaticannews.va/it/papa/news/2021-09/papa-francesco-5-anni-giornata-preghiera-pace.html

[4] ibidem

[5] ibidem

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