Escrevo estas linhas com um misto de sensações. Sei que são as últimas deste projeto que, durante muitos e bons anos, se consubstanciou na forma desta revista querida, pensada, escrita e lida em português, por isso um sentimento de tristeza me acompanha neste exercício. Ao longo dos últimos tempos várias vezes foi referida esta possibilidade, chegámos mesmo a ter momentos de diálogo e reflexão sobre o futuro e a viabilidade da revista e, finalmente, aqueles a quem cabia a competência da decisão acabaram por decidir. Tenho a certeza de que não o fizeram de ânimo leve, e que foi uma decisão certamente muito custosa.
Mas simultaneamente, neste momento, sinto-me movido por uma atitude de ação de graças que quero partilhar. Foi muito bom este exercício desenvolvido ao longo de nove anos (confesso que nem tinha bem a noção deste tempo). O convite que me foi dirigido, e que em boa hora aceitei, abriu-me a oportunidade exigente de poder pensar e refletir temáticas que deveria partilhar com outros, não tanto à maneira de quem ensina, mas à maneira de quem procura, comparte e sabe que caminha em conjunto.
Foi também para mim oportunidade de poder ler tantos textos que me permitiram conhecer outras perspetivas e ângulos de abordagem diferentes dos meus e que me possibilitaram pensar coisas sobre as quais nunca tinha refletido e para as quais não estava assim tão sensibilizado, abrindo-me, assim, a outros horizontes de leitura e de entendimento da realidade. Nisso saí enriquecido. Mas sobretudo, esta experiência deu-me a conhecer novas pessoas, com as quais pude ir desenvolvendo uma relação de amizade que, entretanto, se foi desenvolvendo e consolidando. Por tudo isto, e outras coisas que deixo para o segredo da oração, não posso deixar de publicamente dar graças a Deus.
No primeiro texto que escrevi para esta secção da Revista Traços de uma Presença dei-vos conta de um episódio ocorrido comigo. Nele relatava a experiência apaixonante que um pequeno companheiro de viagem fez ao aprender a ler os cartazes publicitários que se encontravam na via, querendo com esse relato partilhar a entusiasmante experiência da leitura e descoberta de uma Presença que habita e sustenta a realidade.
Transcrevo aqui uma parte do que nessas primeiras páginas escrevi em novembro de 2014:

Acredito sinceramente que Deus habita o mundo e a história humana, o que acontece é que muitas vezes não sabemos ‘ler’ essa presença e ela passa-nos totalmente desapercebida. E, atrevo-me ainda a ir mais longe, dizendo que o Deus em quem acreditamos não só habita o mundo e a história, como através deles dialoga connosco, propondo-nos caminhos e desafiando-nos a percorrê-los. Sei que esta afirmação não é isenta de riscos, nem de críticas. Para muitos este caminho corre o perigo de reduzir Deus ao tamanho da nossa experiência. Tenho consciência desses riscos e compreendo as prováveis críticas, mas, ainda assim, prefiro corrê-los na esperança de com este exercício em vez de reduzir Deus ao tamanho da nossa experiência, possamos ampliar a nossa experiência até ao horizonte do próprio Deus.
O que me proponho fazer é, então, rastrear os traços da presença de Deus na realidade concreta do nosso viver. Por isso, entre os vários títulos possíveis para este espaço, acabámos por optar por aquele que encabeça estas linhas.
E digo rastrear os traços, não porque eles sejam poucos ou muito ténues, mas porque o nosso olhar precisa de ser mais ‘treinado’ nesse sentido. Estou convencido de que, ao descobrirmos essa presença e ajudarmos outros a descobri-la, poderemos partilhar o entusiasmo que daí resulta, tal como o meu querido companheiro de viagens fazia comigo.
Para mim, queridos leitores, este exercício de escrita permitiu-me fundamentar e consolidar esta convicção. Espero sinceramente ter podido ajudar-vos a descobrir com entusiamo os traços dessa Presença. Obrigado pelas vossas leituras.
Já agora, nove anos volvidos, revelo-vos a identidade do meu pequeno e querido companheiro de viagem, é o meu filho Felipe. Com ele, juntamente com os outros companheiros de viagem (familiares e amigos), tem sido possível continuar a aprofundar esta apaixonante experiência de vida.
Foto da capa: Arpino, Frosinone, Itália. Foto Giovanni Voltan, 2023
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