Nunca afastes de algum pobre o teu olhar (Tb 4,7)

A propósito do VII Dia Mundial dos Pobres

Há sete anos, o Papa Francisco escolheu o 23º domingo do tempo comum (o domingo antes da festa de Cristo Rei) para celebrar o Dia Mundial dos Pobres. Uma decisão que coloca os pobres como referência.

Como dizia o Cardeal Michael Czerny (atual Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral): “Garantir aos pobres um lugar privilegiado entre os membros do povo de Deus (cf. EG187-196) não significa apenas reconhecê-los como destinatários privilegiados da evangelização, mas considerá-los como seus sujeitos, como seus agentes ativos” (cf. Artigo publicado na Brotéria em janeiro de 2021).

Vem de longe a preocupação do Papa Francisco pelos pobres. Quando foi eleito Papa no Conclave em 2013, o Cardeal Cláudio Hummes (bispo emérito do Rio de Janeiro) segredou-lhe: “Não te esqueças dos pobres”. Ao longo de todo o seu pontificado, esta presença dos pobres tem sido permanente.

Este ano, a sua mensagem para o Dia Mundial dos Pobres é um desafio e um grito no meio dos sistemas de marginalização e de descarte dos mais pobres: “Nunca afastes do pobre o teu olhar”.

No final do ano da Misericórdia, em 2017, o Papa Francisco propôs às comunidades cristãs e aos homens de boa vontade a celebração de um Dia Mundial dos Pobres. Lutar contra a cultura do descarte e de uma economia que mata era a finalidade desta proposta. Em cada ano o Papa Francisco publica uma mensagem onde aponta caminhos concretos de abertura ao drama da pobreza. Estamos diante do desafio corajoso de conversão da Igreja. Uma igreja serva e pobre que se reconhece solidária com “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres” (GS, 1).

A passagem de uma Igreja auto referencial para uma Igreja samaritana, hospital de campanha, em que todos têm espaço, não é tarefa fácil. O Dia Mundial dos Pobres desafia a olhar a pessoa real no seu sofrimento e marginalização sem se refugiar nos discursos e nas elaborações teóricas sobre os pobres. Dizia Camus: “Conheço algo pior que o ódio, é o amor abstrato”. E o texto para este 7º Dia Mundial dos Pobres é concreto e desafiador:

A pobreza permeia as nossas cidades como um rio que engrossa sempre mais até extravasar; e parece submergir-nos, pois o grito dos irmãos e irmãs que pedem ajuda, apoio e solidariedade ergue-se cada vez mais forte. Por isso, no domingo que antecede a festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, reunimo-nos ao redor da sua Mesa para voltar a receber d’Ele o dom e o compromisso de viver a pobreza e servir os pobres.

Recordando o livro de Tobias, o Papa Francisco lembra como Tobite experimentou o cálice amargo da provação e como a partir da sua pobreza e fragilidade pode reconhecer todos os pobres. Como dizia o P. Américo: “Ai dos pobres se não fossem os pobres…”. É nesse sentido que ganha força a expressão de Tobite: “nunca afastes de ALGUM pobre o teu olhar”. Por isso tem toda a força a palavra do Papa Francisco:

Se sou pobre posso reconhecer de verdade quem é o irmão que precisa de mim. Somos chamados a ir ao encontro de todo o pobre e de todo o tipo de pobreza, sacudindo de nós mesmos a indiferença e a naturalidade com que defendemos um bem-estar ilusório.

No nosso momento histórico, este olhar todo o pobre torna bem presente a urgência de uma Igreja samaritana. Diz o Papa na sua mensagem: “delegar nos outros é fácil; oferecer dinheiro para que outros pratiquem a caridade é um ato generoso; envolver-se pessoalmente é a vocação de cada cristão”. É urgente descer da montada, ajoelhar-se junto das feridas de quem está caído e mostrar que não é um estranho mas um irmão.

A mensagem do papa, a partir duma referência à Pacem in Terris (nos 60 anos da sua publicação) desce aos casos concretos:

O ser humano tem direito à existência, à integridade física, aos recursos correspondentes a um digno padrão de vida, tais como, o vestuário, a moradia, o repouso, a assistência sanitária e os serviços sociais indispensáveis. Segue-se daí que a pessoa tem também o direito de ser amparada em caso de doença, de invalidez, de viuvez, de velhice, de desemprego forçado, e em qualquer caso de privação dos meios de sustento por circunstâncias alheias à sua vontade.

Pacem in Terris 11

Face às dramáticas situações concretas, sinal da grave doença que atinge o nosso mundo, é urgente passar ao compromisso e à ação

  • O trabalho e as políticas do trabalho
    É bom recordar “A referência à plataforma lançada pelo primeiro Encontro Mundial de Movimentos Populares (EMMP): um “projeto-ponte”, baseado naqueles que Bergoglio definiu como “3 Ts: Terra, Teto, Trabalho”.
  • O cenário das guerras e os que aí vivem
    O Papa é contundente na condenação da expressão diabólica que a guerra encerra. “Mantenhamos viva toda a tentativa para que a paz se afirme como dom do Senhor ressuscitado e fruto do empenho pela justiça e pelo diálogo”.
  • A especulação que leva ao aumento desenfreado dos bens de primeira necessidade e “deixa muitas famílias numa indigência ainda maior”.
  • Os salários que se esgotam rapidamente forçando a privações que atentam contra a dignidade das pessoas.
  • A desordem ética que marca o mundo do trabalho: o tratamento desumano dado a muitos trabalhadores e trabalhadoras, a remuneração não equivalente ao trabalho realizado; o flagelo da precariedade; as demasiadas vítimas de acidentes de trabalho porque se privilegia o lucro em vez da segurança.
  • Agir com e pelos pobres
  • “A retórica, quando se fala dos pobres. Tentação insidiosa é também parar nas estatísticas e nos números”.
  • “Os pobres são pessoas, têm rosto, uma história, coração e alma. São irmãos e irmãs com os seus valores e defeitos, como todos, e é importante estabelecer uma relação pessoal com cada um deles.”
  • “O Livro de Tobias ensina-nos a ser concretos no nosso agir com e pelos pobres. É uma questão de justiça que nos obriga a todos a procurar-nos e encontrar-nos reciprocamente, favorecendo a harmonia necessária para que uma comunidade se possa identificar como tal. Portanto, interessar-se pelos pobres não se esgota em esmolas apressadas; pede para restabelecer as justas relações interpessoais que foram afetadas pela pobreza. Assim «não afastar o olhar do pobre» leva a obter os benefícios da misericórdia e da caridade que dá sentido e valor a toda a vida cristã”, conclui Francisco

Foto da capa: Francisco almoça com os pobres na Sala Paulo VII, no Dia Mundial dos Pobres, 19 de novembro de 2023. Foto EPA/RICCARDO ANTIMIANI