O lugar de ver: onde habita a mensagem

Para todos os que são capazes de ultrapassar montanhas e habitar o lugar de encontro
“O lugar de encontro”, parafraseando o escritor José Luís Peixoto

Cotidianos e orquídeas. Foto MSA 2023.

De onde olho, nem sempre vejo. De onde vejo, sempre olho. Durante seis meses abri a janela para abraçar as montanhas e ver nascer orquídeas, no pequeno jardim à beira da janela.

Percorri paisagens em seus variados matizes. Ora verde, ora selvagem. Ora agreste, ora colorida e perfumada. Serpenteei as montanhas de outono e vi, tardiamente, árvores vestidas de amarelo-acastanhado e alguns vermelhos pelo caminho. O outono chegou-nos tarde e, nas primeiras semanas, eram de sol. Depois, veio um frio de inverno antes do seu tempo, trazendo chuvas e tempestades. Ao ver a desfolhagem, carregada pelo vento forte, quando folhas bailarinas rodopiavam o seu destino mundo afora, segui com elas sobre os seus corpos leves, quase etéreos. Segui para sentir o lugar de onde olho e indagar a perplexidade sobre aquilo que vejo no meu cotidiano de orquídeas desnascidas.

Nos seis meses em que escrevi as crónicas sobre os cotidianos de orquídeas, alimentei a minha esperança, ainda que encolhida na tristeza de viver tempos tão complexos. Mas o meu mapa interior foi traçado com cuidado pela geografia do meu avô. Se os momentos difíceis existiam, ele sempre encontrava a poesia, o sorriso largo e a beleza das pequenas coisas. Ele era um homem em paz? Acredito que não, pois era um homem político, reflexivo, apreciador da arte e das grandes questões do mundo. Era inquieto. Mas, por outro lado, era um buscador de beleza e alegria.

A vida respirava em tudo o que fazia e quando estávamos com aquele avô, erámos felizes para sempre, em nossas infâncias. Naquela época nenhuma montanha era intransponível. Nenhum amor era impossível e toda a verdade se estendia naquele sorriso de homem que sonha.

Foi assim que me tornei uma mulher que não chegou a nascer. Que encontra na infância uma memória da eternidade que deveria ser o futuro. Insisto em ir à janela e recolher o mundo, aconchegando-o no meu olhar de infância. Nem tudo que vejo é beleza e poesia, mas não posso deixar de olhar de um lugar, onde posso ver horizontes, desenhando futuros de paz.

Vejo a realidade das redes sociais, exibindo egos narcísicos, famintos de projeção e brilho; destituídos de verdade e amor pelo outro. Mesmo que o outro seja uma quimera sem sentido, o importante é ter o poder para que o outro me siga como se fosse um “canto de sereia” e eu possa dominá-lo ali, onde vive o seu desejo.

A questão é saber o ponto de encontro entre todas as ambiguidades.

Se nós não formos capazes de encontrar um lugar de encontro para o humano, então seremos o fracasso, um projeto que não deu certo. Quer seja um projeto de Deus, quer seja um projeto do acaso que criou o universo, o fracasso está em perder a luta. O deixar de existir como memória e projeto de futuro.

Sigo o caminho e desenho o pensamento como se fizesse curva pelas montanhas. Oiço a “Cantiga do Pastor”, na voz cristalina de Teresa Salgueiro, ex-vocalista do grupo Madredeus, divina como a paisagem que me engole monte a monte. A música me acompanha e sinto-me perto do paraíso, como se eu dissesse: “eu só conheço o paraíso”. Mas sei que não é verdade e o paraíso está distante; este está algures e, possivelmente, faz parte do meu sonho e fantasia de querer a vida, como se esta fosse uma menina vestida de branco a brincar entre as flores.

Percorrer os olhos para além da minha janela e pousar no paraíso foi como um amuleto ou pedra de salvação. A palavra que cura. Durante o meu percurso encontrei pessoas inusitadas, personagens que me apresentaram o seu drama existencial. Fui ao café com o meu amigo mendigo e juntos fizemos as leituras de Dostoiévski. Discutimos sobre a miséria humana e enquanto ele sobrevivia, para além das suas dores, nós ficávamos amigos.

Na quinta crónica eu encontrei o sonho e o desejo de ultrapassar uma vida limitada pela guerra e pela angústia. O sonho bateu à porta e a vida se renovou. Viajei por cenários de ilhas e pássaros azuis. Fiz nascer pessoas que estão pelo mundo, materializadas em palavras. Todas elas seguiram o seu destino. Partiram e não voltaram.

Assim é a vida de um autor – de despedidas. As personagens nascem e já têm destino certo, aquele que escolheram. São robustas ou não, complexas ou precárias. Estreitas ou largas. Por vezes, mesquinhas e frágeis. As narcísicas e manipuladoras são horríveis e pobres. Precisam de se alimentar do mais humano dos outros, assim sobrevivem a sua própria miséria afetiva.

Não é fácil ver tais personagens nascerem, ganharem gosto pela própria existência e depois seguirem, sobrevivendo a nós que as fizemos existir. Por outro lado, por mais estranho que pareça, as personagens nos fazem sobreviver à pequenez de apenas olhar os dias. Se as criamos é para nos salvar e curar das dores. Para falarmos pelas suas vozes.

A natureza é complexa em sua exuberância e equilíbrio. A harmonia que me acompanha no traçado das montanhas não se encontra na natureza do humano – contraditória em tudo. Eis que me deparo com personagens que adentram porta adentro e, como num sopro de vida, sussurram-me para nascer, pedindo-me clemência e boa vontade. A personagem que me sopra aos ouvidos pede para nascer bonita, plena, boa e curada. Mas eu que a escrevo não sei o caminho da perfeição.

Então, ela nasce. Imperfeita e a precisar de retoques. Eu retoco-a e retoco-a. Cubro-a de colorido e afeto, mas ela continua precária. Ambígua e perdida. Todas elas, inclusive as boas e sublimes. Mas tem de nascer e nasce, tal como se é. Não há volta. Como autora, o que me importa é que ela nasça e procure a sua redenção. Por isso, olho as orquídeas e busco a delicadeza. Por isso, atravesso mares e mergulho em águas profundas para conhecer os abismos, tendo a possibilidade de subir aos céus, depois de ter passado pelo fogo.

Mas nada daquilo que olho terá sentido se os meus olhos não estiverem à procura de ver. As viagens pelas montanhas me permitiram muitas vezes questionar o visto. Desejei o novo em todos os nascimentos e transformações. Persegui a ordem e a desordem, determinadas pelos caminhos das montanhas, nunca lineares.

Olho as guerras se instalarem na história e nos comportamentos humanos. Olho o desespero pelo sucesso e pelo poder. Olho a ânsia por uma beleza e poesia qualquer. Olho a banalização da violência e, contraditoriamente, do amor. Olho. O que vejo? Vejo pessoas que não conseguem encontrar o seu lugar de ser. Que não conseguem superar a dor das suas feridas narcísicas. Pessoas que seguem às avessas, sem sonho ou esperança. Sem libido voltada para a criação de uma vida boa e justa para todos. A vida boa está reservada para os egos de ouro que sentem prazer em ser a imagem do mundo. O eu, centro do mundo, que pode manipular e artificializar os afetos. Perdido em si mesmo e de si mesmo segue, destruindo a possibilidade de recuperação e sentido. No mundo das grandes redes de comunicação e inteligência artificial, as montanhas são obstáculo. Perigo. Alerta.

Foi assim que ao caminhar durante meio ano pelas montanhas, diante do sol, no vento e na chuva, eu pude encontrar a minha janela de orquídeas, sempre a desabrocharem como se fossem um abraço para o meu olhar. Este foi se tornando uma espécie de inteligência sensível, quase um contraponto à inteligência artificial.

As montanhas eram. Estavam vivas na minha subjetividade. Falavam mais de mim e da minha memória do que qualquer realidade contemporânea. As montanhas não eram, elas são a verdade do que vejo e como vejo. Elas são a metáfora do meu vínculo com o mundo.

Tudo aquilo que eu vos escrevi em cada crónica faz parte do real. Manteve-me em busca da capacidade de ver, ainda que eu fugisse de expressar a realidade tal como a via. Pude assim, manter o olhar em direção do que poderia ver. De outra forma, o meu desejo veio sempre como imperativo de que o leitor precisava de condimentos, quase feitiços, de beleza e de esperança. Para se inaugurar novos mundos há que existir utopia. Não basta olhar e ver o fracasso. A falta. A miséria. Há de haver outros caminhos para se olhar e ver o real, sem que o desespero ou desânimo nos assole e condicione. Há que haver salvação para a nossa condição histórico-antropológica.

Finalizo o meu percurso como mensageira que faz caminho pelas montanhas, agarrada fielmente à palavra esperança. A esperança de que o nosso lugar de ver seja o lugar de encontro. Seja de empatia e compromisso com a vida em todas as suas dimensões. Neste momento de despedida da revista Mensageiro de Santo António, como autora e como leitora, me preparo para novas viagens, nas quais o passaporte tem carimbo na palavra gratidão, mediada pelo desejo de olhar e ver orquídeas na janela e cotidianos de espera, onde pouse tudo que signifique a vida em nós.

Sendo mensageira só posso dizer que todos os olhares podem ser janelas para se ver mundo. Se conseguirmos ver, então haverá momentos de diálogo e encontro. De permanência e futuro. De montanhas e horizontes, pois “(…) Ao largo ainda arde a barca da fantasia e o meu sonho acaba tarde, acordar é que eu não queria”.

As montanhas do norte de Portugal me ensinaram o ritmo e a pulsação de caminhos que me fizeram ver mais a alma do que a selva. Não pude esquecer de que a dor é a nossa maior possibilidade de amor e liberdade. Foi de lá, entre montanhas e infinito que vos encontrei nos meus cotidianos, constituídos por duras realidades; mas preenchidos pelo sonhar com uma janela de orquídeas ao pé das montanhas, onde o mar quebra e serena. Onde existe um lugar de encontro, traçado pelo desejo de um mundo possível e melhor.

Volto para casa e o meu pequeno Santo António me olha sorrindo.
O lugar de encontro é o da trégua que precisamos fazer para nos olhar e ver. Vendo-nos na recuperação do mundo. Talvez seja possível.

Foto da capa: Não pude esquecer de que a dor é a nossa maior possibilidade de amor e liberdade. Ao pé das montanhas, onde o mar quebra e serena, existe um lugar de encontro, traçado pelo desejo de um mundo possível e melhor. Maxi – stock.adobe.com.