Queria que o meu último texto para O Mensageiro não fosse sobre ‘um filme qualquer’, e acreditem que não é. Confesso que, durante o filme com alguma água nos olhos, também me perguntei ‘qual é o meu lugar’, que ‘marca’ ficará da minha passagem pela Terra, pela Igreja…

Fui ver o filme um dia depois de ter estado sentado ao lado de um ‘companheiro de Emaús’, numa assembleia que cuidava da fraternidade sacerdotal. Fui ver o filme quatro dias antes de celebração do sétimo Dia Mundial dos Pobres ‘inventado’ pelo papa Francisco para que nenhum batizado ‘nunca afaste de algum pobre o seu olhar’. E quando este texto sair, estaremos muito perto de celebrar os 800 anos do Presépio ‘inventado’ por Francisco de Assis para não deixar esquecer o Mistério da Encarnação e a infinita bondade do Deus que assume a fragilidade humana na pobreza mais radical.
No filme, para além de um desenho que remete para o santo de Assis, há um Francisco que é decisivo para a opção daquele que se tornará Abbé Pierre: ‘Porque estás sempre a fugir do mundo?’.
Em Abbé Pierre, um homem de causas, estamos diante de uma biografia de um dos fundadores dos Companheiros de Emaús, associação fundada, na sequência de um apelo na Rádio Luxemburgo, no Inverno de 1954. Nascido Henri Groués, em 1912, no seio de uma família burguesa de Lyon, e falecido em 2007, no fim de uma vida longa, quase toda dedicada aos pobres, sobretudo aos sem-abrigo, em França.
O actor Benjamin Laverne, que faz todo o seu papel no filme, diz que é a história do “homem que encarna a maior aventura solidária do século XX e cuja vida é profundamente romanesca”. E o filme permite-nos ver toda essa força interior e essa determinação contra a miséria, a injustiça, a indiferença. Ele viveu realmente encarnado no seu tempo e foi um homem do seu tempo.
Por isso, o mais ‘terrível’ do filme são as últimas imagens (documentais e actuais) dos sem-abrigo. Apesar do tanto que Abbé Pierre lutou e conseguiu, o mundo quase não mudou, uma vez que temos mais de 4 milhões de pessoas sem habitação ou com habitação deficiente, só em França.
Mas não posso terminar sem uma referência fundamental a uma heroína quase sempre ignorada por ter vivido na sombra: Lucie Coutaz, de quem Abbé Pierre dizia que foi cofundadora dos ‘Chiffoniers d’Émaús’, a ‘insurreição da bondade’. Ela foi a luz que ajudou Abbé Pierre a encontrar e reencontrar o caminho, que lhe moderou o seu orgulho e os seus ímpetos, e o trouxe à razão tantas vezes. Sem ela, não teria havido Emaús e Abbé Pierre não teria vivido aquele que foi o seu desígnio.
Não é um filme fácil de ver por quem não traz no coração o fogo do Evangelho (li um artigo que falava mesmo de ‘charité crètine’, tão excessiva há-de parecer uma vida como aquela e tão cheia de tantas contradições, claro). Também não sei dizer se é ou não ‘grande cinema’. Mas que não me deixou indiferente, isso não deixou. Como dizia o ‘castor meditativo’, “a fraternidade nunca descansa”. Fratelli Tutti!
Foto da capa: Abbé Pierre – Uma vida de causas, Fréderic Tellier, Drama, M/12, 2023, FRA
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