Sermões II: Os Evangelhos

É com um Autor insigne que se conclui a secção de Livros do Mensageiro de Santo António. Ao privilégio de fazer parte de um projeto editorial com 39 anos de existência, somou-se o interesse e o carinho que estes Livros, e suas recensões, receberam nestas páginas. Às Leitoras e Leitores, assim como à Redação do MSA, um profundo e grato bem-haja.

O SNL prossegue a publicação dos Sermões de Santo Agostinho, reunindo agora, neste 2º volume, os 128 sermões dedicados aos quatro Evangelhos e ordenados segundo a sequência do texto bíblico. Encontramos aqui, quer breves homilias a comentar algum ponto suscitado pela leitura textual, quer autênticos comentários que, na prática atual, se situam mais próximos da catequese bíblica.

Três são os âmbitos de familiaridade que estão em jogo neste exercício da palavra: a familiaridade com uma língua enquanto jogo e forma de vida, a familiaridade com os textos bíblicos e a familiaridade com a comunidade ouvinte. Se cada uma destas dimensões é, já por si, algo difícil de conquistar, Agostinho alcança a proeza de reunir as três: daí a força significante do seu discurso. “Se eu me afadigo em explicar-vos o que sinto, ajudai-me não só com a atenção própria de quem escuta, mas também com a sagacidade própria de quem pensa” (p. 807). Encontramos nestas marcas um desejo de comunicação e ensino próprio de quem se deixa fascinar pelo texto bíblico, e não de quem está apenas a pregar em virtude de uma função que lhe é atribuída ou de um papel que lhe é imposto.

São as questões humanas fundamentais que Agostinho trabalha, do seu tempo como de hoje. Por exemplo, a questão da riqueza, da pobreza e da partilha à luz do Evangelho, onde encontramos as sentenças mais incisivas: “Para que tu não julgues que fazes algo de extraordinário, lá porque repartes o pão com o pobre, quando isto mal atinge a milésima parte das tuas possibilidades” (p. 371). Mas não é a riqueza a fonte do mal, é sim a avareza, mesmo no pobre que ambiciona ser rico ao invés do rico que com os seus bens alimenta a muitos. E não é na origem honesta dos bens que está a segurança: “guardas com ganância o que tens, a bem dizer, com uma boa consciência” (p. 559).

Agostinho trabalha, investe, interroga. Não faz arqueologia do passado – que sentido teria este texto para o seu autor ou comunidade –, mas acolhe o sentido que vem, que gera os crentes para uma vida nova. Não é do passado que estes Sermões nos falam, mas do futuro, da arte de projetar os discípulos para o Ressuscitado, Aquele que vem no rosto do Outro. “Não podes curar um doente, mas podes vestir o nu. Faz o que podes. Deus não te exige o que não podes” (p. 730). Uma leitura contínua, vagarosa, destes Sermões permitirá mergulhar o leitor numa pedagogia da vida cristã; uma consulta regular, por ocasião de uma homilia ou sermão, permitirá ao orador alimentar-se de um discurso vivo e fecundo. Em ambos os casos, trata-se de um livro a cujo privilégio de o encontrarmos publicado em Portugal deverá corresponder uma atenção agradecida.

“Haverá coisa pior do que os cuidados da vida que não deixam que se alcance a vida? Haverá coisa mais miserável que deixar escapar a vida por preocupar-se com ela? Haverá coisa mais infeliz que cair na morte, por se ter medo dela?” (p. 511).

Sermões II: Os Evangelhos
Autor: Santo Agostinho
Edição: Secretariado Nacional de Liturgia, 2023
Páginas: 1000
Tradução de José António Gonçalves, introdução e notas de Isidro Pereira Lamelas

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