São poucas as referências à vida de Santo António em Portugal. Normalmente resumem-se a um pequeno capítulo inicial nas biografias, onde se faz alusão aos primeiros anos que viveu em Lisboa e depois em Coimbra.
É por isso sempre interessante conhecer as pequenas histórias deste frade em Portugal, como a que fomos encontrar na primeira parte da História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Província de Portugal (Lisboa, 1656), de Frei Manoel da Esperança. No capítulo XXII, resume o seu ingresso na ordem dos frades menores e oferece-nos pistas dos últimos passos que deu em Portugal.
Fez este notável trânsito o padre Santo António da casa de Santa Cruz para a nossa de Santo Antão dos Olivais na qual então assistimos em novembro do ano 1220, tendo ele 25 e 3 meses de idade. E transformado noutro homem, vestido no nosso hábito humilde e penitente à imitação de Cristo, até o nome trocou, deixando o de Fernando e chamando-se António, por razão do dito Santo abade, titular da mesma casa. Aqui começou a ser noviço, não somente no estado de frade de São Francisco, mas também nos exercícios santos que pede a nossa regra. Acrescentou penitências, multiplicou humildades, amontoou devoções; e quanto mais alongado se viu das coisas do mundo pela parte da pobreza estreitíssima que entre nós se professa. Descobrindo desta alta iminência mais claramente o céu, gastava o tempo na sua contemplação. Estas eram as suas grandes delícias: Seguir pobre a Cristo pobre, pelo caminho da Cruz. Apertava-o porém, aquele forte desejo de padecer por seu amor em Marrocos, procurando para isto a licença com tanto fervor e ânsias que brevemente lhe fizeram profissão.
(…)
No padre Santo António tinha isto mais lugar, porque nossas asperezas diziam com seu espírito, e a sua santidade era sabida dos frades; e por isso, no princípio do ano seguinte de 1221 lhe demos a profissão. Teve logo a licença para ir pregar em África com a qual se despediu de Coimbra levando por companheiro o santo frei Filipe.
Tomaram ambos o caminho de Lisboa pela parte de Leiria onde há fama constante que na paragem junto da sua estrada, em que agora se vê uma ermida do mesmo Santo António, estiveram descansando. Daqui cortaram pela vila de Alpedriz, a qual em outra ermida conserva esta memória, como também dentro dela a conservava no tronco de um Pinheiro, a cujo pé se sentaram. E depois de visitarem a milagrosa imagem de Nossa Senhora da Nazaré, por causa da qual fizeram esta digressão devota, no Convento de São Francisco de Lisboa esperaram alguns dias navio que os levasse a África. Vinha Santo António tão estranho no seu nome, tão disfarçado no seu hábito, tão penitente no rosto, que apenas o conheciam os parentes, e amigos que dantes o conversavam. E venerando-o todos por isto mesmo, que viam o intento de ir pregar aos Mouros e morrer em suas mãos, convertia o respeito em grande admiração. (pp. 332 a 334)
Por seu lado, Jorge Cardoso, no Agiologio Lusitano (Tomo III, 1666, p. 660) deixa-nos palavras premonitórias do momento em que António se despede do Convento de Santa Cruz:
É certo que despedindo-se dos Cónegos de S. Cruz, lhe disse um deles: “Vai-te que porventura serás Santo”. Palavras enfáticas, e indutivas do desabrimento, com que magoado as pronunciava. Mas elas tiveram do celestial varão por resposta: “Se assim o ouvires, peço-te que louves e engrandeças as maravilhas do Senhor”.
Foto da capa: Painel de Azulejos com o milagre de Santo António (?) sob um pinheiro. Coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Peniche. Museu de Lisboa / Pedro Teotónio Pereira.