Entrevista com Mari Anttila & Alberto Garbin
Saíram de Saccolongo (a 15 km de Pádua) no dia 15 de julho e chegaram a Lisboa a 4 de agosto, depois de passarem por Pádua, Lourdes, Coimbra e Fátima, entre outro lugares. Liderados por Gabriele Norbiato, são 8 ciclistas jovens e quase jovens, acompanhados por uma equipa logística constituída por quatro adultos e duas crianças.
MSA: Olá Mari e Alberto. Contem-me um pouco sobre esta vossa experiência de bicicleta desde Saccolongo até Lisboa, passando por Pádua e Coimbra, três cidades que marcam 3 etapas na vida de Santo António.
Alberto: Esta viagem de bicicleta até à JMJ de Lisboa nasce de uma ideia que já tem 17 anos, quando alguns de nós participámos na JMJ de Cracóvia, na Polónia, em 2016. Alguns de nós avançaram com a ideia de repetir a experiência nesta JMJ.
Contagiamo-nos uns aos outros e decidimos participar nesta missão até Lisboa. Na realidade iremos passar por outros lugares da fé cristã como Lourdes, Fátima, atravessando quatro nações: Itália, França, Espanha e Portugal. Gostaria de sublinhar esse facto: partimos de Pádua, ou melhor, de Saccolongo que fica a 15 km de Pádua que é a cidade onde morreu Santo António e fazemos o percurso inverso até Lisboa onde nasceu Santo António. Passamos por Coimbra a 2 de agosto, Fátima e chegaremos a Lisboa a 4 de agosto.
MSA: Uma vez que esta é a segunda vez que fazem algo de semelhante, primeiro Cracóvia e agora Lisboa, quais são as diferenças entre estas duas aventuras?
Mari: Para mim é a primeira vez.
Alberto: De Pádua a Cracóvia eram 1600 Km, este ano percorreremos 2550 Km. Por isso há uma grande diferença na distância e no tempo da peregrinação.
Mari: Este percurso é mais acidentado, com maiores elevações para vencer pelo que o dia fica preenchido a pedalar. Começamos às 8 da manhã e chegamos ao destino por volta das 5 da tarde, às vezes 6. São dias longos.
MSA: Para ti, Mari, que pedalas pela primeira vez como está a ser a experiência, como te sentes?
Mari: É realmente exigente, física e emocionalmente, até por que é a primeira vez que faço uma viagem de bicicleta, a primeira vez que vou a uma JMJ e a primeira vez que viajo em grupo.
A coisa mais bela é a forma como sentes a energia do grupo; cada vez que chegas ao ponto de dizer “eu não consigo”, tens os outros à tua volta que te dizem “tu consegues” e chegas ao fim e dizes “Uau todos juntos conseguimos!”. Depois atravessar novas paisagens, novas cidades e sobretudo o acolhimento caloroso e cheio de amor das comunidades quando chegamos ao destino, em locais como paróquias, santuários. É algo muito bonito que nunca havia experienciado antes.
MSA: O que é que está por detrás desta ideia de viajar de bicicleta? Não seria mais fácil e rápido viajar de avião e chegar em poucas horas. Para quê gastar semanas numa viagem que poderia demorar apenas algumas horas?
Alberto: Refletíamos com o pároco que nos acompanha, Padre Francesco, que esta viagem de bicicleta nos permite viver um tempo mais lento para meditar, e alegrar-se com cada etapa da viagem e o facto de estarmos e rezarmos juntos.
Muitas vezes rezamos as Laudes de manhã, entre nós ou com a comunidade que nos dá hospedagem, à tarde quando chegamos participamos na missa, ou nas vésperas, por exemplo, ontem à tarde foi belíssimo num mosteiro de Clarissas, em Burgos, recitar as vésperas com elas e depois partilhar com cada comunidade que encontramos a nossa experiência com a experiência deles, a nossa vida com sua vida.

MSA: Pergunto-me se para além disso há também uma preocupação ecológica, inspirada na Laudato si’ do Papa Francisco?
Mari: A preocupação ecológica não foi a razão principal que nos moveu, embora, claro, tenhamos essa preocupação e procuremos sempre fazer escolhas ecológicas, separando o lixo e reciclando, por isso viajar de bicicleta é certamente uma opção mais amiga do ambiente do que viajar de avião, mas, tal como o Alberto dizia, a principal razão é porque é um meio simples, natural e tão antigo de nos movermos, usando as nossas pernas e os nossos músculos para nos deslocarmos.
Alberto: Além disso somos um grupo que adora loucamente o ciclismo.
MSA: Quais são as vossas expectativas quando chegarem a Lisboa e se encontrarem com o Papa?
Mari: Sendo a minha primeira JMJ vou de coração aberto, de mente aberta, certamente estou curiosa em sentir a energia de milhares de pessoas, milhares de jovens, acreditando na mesma coisa. Tal como em Lourdes, apesar das barreiras linguísticas, vimos tanta gente acreditando no mesmo, estando em sincronia, compreendendo-se mutuamente, é isso que espero encontrar na JMJ, pessoas de todo o mundo, com as mesmas crenças, procurando respostas para a sua vida, procurando momentos de reflexão, rezando com o Papa e com os outros. Certamente vai haver uma bela energia.
Alberto: Participei em Cracóvia 2017, recordo aquela multidão imensa de rapazes e raparigas de todo o mundo e como dizia a Mari, isso te dá uma energia, estar ali, fundamentalmente, por um motivo que é Cristo e encontrar-se numa única fé, que é a fé da Igreja, é uma sensação que te dá uma energia que permanece no coração.
MSA: Isso acontece por causa do Papa, por causa do encontro ou por ambas as razões?
Mari: Acredito que é sobretudo o efeito de tanta gente jovem junta com o Papa. Acredito que a gente jovem consegue fazer coisas fantásticas e estando juntos no mesmo lugar com o Papa, toda essa energia só pode explodir para a sua máxima beleza.
MSA: Que mensagem gostariam de deixar aos jovens de Portugal?
Mari: Primeiro gostaria de dizer aceitem o desafio e tentem algo de novo, pois isso abrirá a vossa mente e vos ajudará refletir a partir de diferentes pontos de vista. Também eu, enquanto pedalava fui pensando na vida, pedalar é uma forma de o fazer, mas penso que isso pode ser feito de muitas outras formas. Outra coisa que gostaria de dizer “apreciem a simplicidade das coisas”. Ao caminhar para a escola, ao ver uma flor, olha para a flor e pensa como a vida é bela, no que Deus te deu, nas belas coisas que tens na tua vida. Isso dá-te energia e ajuda-te a ultrapassar tempos mais difíceis.
Alberto: O que eu diria aos rapazes e raparigas portuguesas que não farão uma grande viagem como nós, que nessa viagem ainda que curta para a JMJ possam encontrar a beleza da partilha com todos os outros mais velhos ou mais jovens.

MSA: Vivemos num mundo que caminha para o abismo: crise climática, guerras, fome, extremismos… A juventude, hoje, continua a sonhar mudar o mundo, como eu sonhei na juventude, ou já desistiu?
Mari: Eu penso que há um enorme potencial na geração jovem em relação ao desafio das mudanças climáticas, mas também em relação à paz e à unidade; durante a nossa viagem falávamos também do impacto das redes sociais e de como é difícil utilizá-las bem, mas penso que se nos mantivermos unidos e nos focarmos em fazer o bem uns aos outros e na simplicidade das coisas, começando por abdicar por exemplo de roupa a mais, acho que a gente jovem pode provocar uma grande mudança, mas precisamos de nos manter unidos, de nos amarmos uns aos outros, começando por amar aqueles que nos são mais próximos.
Alberto: Penso que os jovens mais do que mudar o mundo, devem melhorá-lo, mas isso só será possível se mostrarmos capacidade de ser curiosos, de não ficar instalados comodamente em casa, mas de ter objetivos para sair da própria comodidade, como nós fizemos, por exemplo, escolhendo abandonar meios mais cómodos como o avião para chegar mais rápido a Lisboa, escolhendo galgar a estrada mais cansativa, mas certamente mais bela, mais profunda e mais capaz de favorecer o encontro e a partilha com os outros.
Mari: Gostaria de partilhar ainda que alguns de nós para além de renunciar à escolha fácil do avião, deixámos ou mudámos de emprego, pois era impossível conciliar esta aventura com o tempo de férias disponível. Ou seja “sacrificámo-nos” por algo melhor, pois acreditamos que cada um de nós vai voltar para casa mais rico.
MSA: Parabéns pela vossa aventura. É um belo testemunho para os jovens e também para os menos jovens. Desejo tudo de bom para vocês com a bênção de Santo António que calcorreou a Europa a pé.


“A Capelinha onde nos encontramos constitui uma bela imagem da Igreja: acolhedora, sem portas. A Igreja não tem portas, para que todos possam entrar. E aqui podemos insistir também no facto que todos podem entrar, porque esta é a casa da Mãe, e uma mãe tem sempre o coração aberto para todos os seus filhos, todos, todos, todos, sem excluir nenhum.
Capelinha das Aparições, Fátima, 5 de agosto. Foto SF Luís Oliveira | JMJ 2023
Estamos aqui, de baixo do olhar maternal de Maria; estamos aqui como Igreja, Igreja Mãe. A peregrinação é exatamente uma característica mariana, porque a primeira que fez uma peregrinação, depois da Anunciação do Senhor, foi Maria. Logo que soube que a sua prima Isabel estava grávida − já era de idade avançada a prima −, saiu apressada com o desejo de ajudar, de estar presente.
Muitos são os títulos de Maria, mas, pensando bem, poderíamos acrescentar mais um: a Virgem “apressada”, todas as vezes que há um problema, todas as vezes que a invocamos, não demora, vem pressurosa! Vem apressada para ficar junto de nós, apressa-se, porque é Mãe!”
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