Cem anos passados, Portugal e o mundo revisitaram as aparições da Virgem.
Foram feitos estudos de índole variada – teológica, histórica, cultural, política, sociológica e filosófica, apenas para citar as principais – no intuito de se saber mais e com maior profundidade acerca dos três meninos, da mensagem que receberam, do contexto histórico antes, durante e depois das aparições.
O mundo mudou

Desde há cem anos, o mundo mudou – e Portugal com ele. Duas guerras mundiais, a Guerra Fria, ditaduras, os movimentos anticoloniais, o desmoronamento da maioria das potências comunistas, o avanço inédito da tecnologia, com os seus benefícios e malefícios em diferentes e múltiplos campos.
O tempo prosseguiu a marcha cadenciada de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses anos, atirando o mundo para a frente; seguindo a pulsação inexorável, o planeta avançou, Portugal avançou, a Igreja avançou, transportando com ela as lições reveladas em Fátima. Estas, tal como as parábolas de Cristo, não perderam a sua atualidade, podendo ser revisitadas à luz do tempo em que são lidas. Não foram apenas escritas para o presente deles ou para o nosso presente; dirigem-se ao próprio presente dos vindouros.
A dimensão feminina do acontecimento das Aparições
Algo que me toca na vinda de Maria ao encontro das três crianças é a dimensão feminina do acontecimento. Duas meninas e um menino, em ambiente bucólico guardando o seu rebanho, são visitados pela Virgem – o próprio arquétipo da feminilidade. Nesse instante, o campo aberto transforma-se em espaço de intimidade e recolhimento. A Virgem toca as almas das crianças pela doçura e beleza, inspirando-lhes amor. A bondade de Maria, o amor que lhes tem e dá, permitem aos meninos suportar tormentos vários – a repressão, o terror, a doença, o sofrimento e a morte.
Em Fátima mostra-se que os mais pequenos dos pequenos podem ser maiores do que os maiores deste mundo. Maria escolhe-os, nutre-os, robustece-os, de modo maternal; mas, também como mãe, prepara-os para o que irão enfrentar até as suas almas florescerem – e o seu amor não os abandona, está sempre com eles.
Não poderá a ação da Virgem em Fátima ser vista como uma síntese da ação da Igreja? Esposa de Cristo, a Igreja recolhe no seu seio os seres humanos que a ela se acolhem, assistindo-os em vida: na alegria, no sofrimento, na preparação para a passagem que é a morte.
O que podem os homens os homens fazer pela Igreja?
Aborda-se frequentemente a possibilidade de a Igreja dar mais espaço à ação das mulheres no seu interior. O que podem as mulheres fazer pela Igreja? Como mulher, dou por mim a pensar que a questão faz sentido; e isto independentemente da conclusão a que se chegue ser mais ou menos revolucionária. Todavia, também como mulher, dou por mim a pensar se a pergunta é assim tão acertada. Há tantas mulheres e tão importantes em toda a História da Igreja… Dou, então, por mim a formular a pergunta inversa: e o que podem os homens – os varões – fazer pela Igreja?
Parece-me que a questão não deve ser apenas posta de um dos lados, sob pena de se desequilibrar os pratos da balança. Estarão os homens apaziguados com o seu papel? Permitir que o homem, enquanto parte integrante da Esposa de Cristo, possa contribuir para o cumprimento da dimensão feminina da Igreja, talvez beneficie a própria Igreja e a ação desta no mundo. E se esta for uma interpelação de Fátima para o futuro?
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