Três vozes, uma mesma fraternidade
Celebrar o Ano Jubilar de São Francisco de Assis é muito mais do que recordar uma das figuras mais extraordinárias da história do cristianismo. É regressar a uma pergunta essencial: “como viver o Evangelho num mundo dominado pelo poder, pela riqueza, pela violência e pela tentação de transformar o outro num estranho?”
Oito séculos depois, Francisco continua surpreendentemente atual.
Há um fio espiritual que podemos traçar entre São Francisco de Assis, Santo António de Lisboa e o Papa Francisco. Três homens separados pelos séculos, diferentes na personalidade e na missão, mas unidos por uma mesma intuição: o cristianismo começa quando reconhecemos no outro um irmão.
Francisco de Assis levou essa ideia às últimas consequências. Filho de um comerciante abastado, abandonou a segurança dos bens para descobrir outra forma de liberdade. A sua pobreza não significava desprezo pelo mundo. Pelo contrário: Francisco amava profundamente o mundo porque o recebia como dom.
Daí o Cântico das Criaturas: irmão Sol, irmã Lua, irmã Água, irmão Fogo e irmã nossa, a Terra.
Não estamos perante uma simples poesia da natureza. Encontramos aqui uma verdadeira cosmovisão. O homem deixa de se considerar proprietário absoluto da criação para se reconhecer criatura entre criaturas, responsável por aquilo que recebeu.
Poucos anos depois, outro homem entrou nessa aventura espiritual: Fernando de Bulhões, o nosso Santo António de Lisboa.
António encontrou no movimento franciscano a forma de vida que procurava. Se Francisco se tornou sobretudo testemunho vivo da pobreza e da fraternidade, António acrescentou a extraordinária força da inteligência, da palavra e do conhecimento das Escrituras.
Francisco mostra o Evangelho vivido.
António ajuda-nos a compreender e a anunciar o Evangelho.
Não são caminhos opostos. São duas dimensões da mesma experiência cristã: a verdade precisa da caridade e a caridade precisa da verdade.
Oito séculos depois, um terceiro homem escolheria significativamente o mesmo nome.
Quando Jorge Mario Bergoglio foi eleito Papa, em 2013, escolheu chamar-se Francisco. Foi o primeiro Papa da história a fazê-lo. A escolha continha já um programa: uma Igreja próxima dos pobres, atenta às periferias, preocupada com a paz, com a dignidade humana e com o cuidado da criação.
Essa inspiração tornou-se particularmente evidente na Laudato si. Até o título nos conduz diretamente ao santo de Assis: Laudato si, mi’ Signore — “Louvado sejas, meu Senhor”.
Mais tarde, na Fratelli tutti, outra dimensão profundamente franciscana ocuparia o centro: a fraternidade universal.
É aqui que São Francisco, Santo António e o Papa Francisco parecem encontrar-se.
Francisco de Assis ensina-nos a despossessão.
Santo António ensina-nos a palavra ao serviço da verdade e dos pobres.
O Papa Francisco procurou traduzir essas intuições para os grandes problemas do século XXI: desigualdade, migrações, guerra, degradação ambiental, cultura do descarte, solidão e indiferença.
Nos três encontramos, portanto, algo que ultrapassa uma determinada época histórica: uma antropologia da fraternidade.
Se o outro é meu irmão, já não posso olhar para o pobre como um número estatístico, para o migrante como um problema, para o adversário como inimigo absoluto, para a natureza como simples matéria-prima ou para a economia como realidade desligada da dignidade humana.
Talvez esteja aqui o sentido mais profundo deste Jubileu.
Celebrar São Francisco não pode significar apenas admirar a sua doçura, os pássaros, o presépio de Greccio ou o *Cântico das Criaturas*. Tudo isso pertence à sua extraordinária história. Mas Francisco é muito mais exigente.
Francisco obriga-nos a perguntar: quanto precisamos realmente para viver? Quem consideramos nosso irmão? O que fazemos com o poder que possuímos? Como tratamos os frágeis? Que mundo deixaremos aos que vierem depois de nós?
Santo António acrescentaria outra pergunta: temos coragem de dizer a verdade diante do poder e da injustiça?
E o Papa Francisco acrescentou uma terceira: somos capazes de construir uma fraternidade que atravesse fronteiras, culturas, religiões e diferenças?
Talvez possamos resumir assim a herança que este Ano Jubilar nos convida a redescobrir:
- São Francisco ensinou-nos a chamar irmão ao outro.
- Santo António ensinou-nos a dar voz a esse irmão.
- E o Papa Francisco recordou ao nosso tempo que ninguém se salva sozinho.
Oito séculos depois de Assis, a fraternidade continua por cumprir.
E talvez seja precisamente por isso que Francisco continua a ser tão necessário.