O Evangelho da Criação
No Capítulo 2 da Laudato Si’, intitulado “O Evangelho da Criação”, o Papa Francisco responde à pergunta: “Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referente às convicções de fé?” (LS, 62).
Francisco propõe uma visão integrada da existência, na qual a criação revela o amor e o poder de Deus. Inspirando-se nos relatos bíblicos, o capítulo enfatiza que todas as criaturas – da grandiosidade do cosmos às menores formas de vida – estão interligadas e possuem um valor intrínseco, o que impõe aos seres humanos uma responsabilidade ética de cuidado e preservação da Terra. Ao mostrar que a degradação ambiental está profundamente enraizada em comportamentos que geram injustiças sociais, Francisco convoca cada pessoa a repensar o seu estilo de vida, adotando práticas de simplicidade, solidariedade e respeito para com a natureza, e assim restaurar o equilíbrio perdido na nossa “casa comum”.
No Capítulo 2, a fé é apresentada como uma luz que ilumina a compreensão e a responsabilidade dos seres humanos perante a criação. Essa luz inspira a admiração e o cuidado pela Terra, revelando que o encontro com o divino se manifesta através do compromisso com o meio ambiente.
A Luz Oferecida pela Fé.
“Deveremos reconhecer que as soluções não podem vir duma única maneira de interpretar e transformar a realidade. É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria” (LS, 63).
A Sabedoria dos Relatos Bíblicos
Os relatos bíblicos são uma fonte de profunda sabedoria sobre a origem e a ordem do universo. Esses textos ajudam-nos a entender que a criação não é fruto do acaso, mas o desdobramento intencional de um plano divino, convidando a uma postura de respeito e reverência.
Segundo Teilhard de Chardin: “A matéria é o espírito que se move suficientemente devagar para ser visto”.
O Mistério do Universo
A Carta Encíclica destaca o universo como uma obra envolta em mistério, cuja complexidade e beleza revelam a mão de um Criador amoroso. Esse mistério convida-nos à humildade, à contemplação e à preservação da sua beleza..
Somos a primeira geração a saber que o universo observável tem 13,8 mil milhões de anos. O planeta Terra, a nossa casa comum, tem 4,6 mil milhões de anos e orbita um Sol que é uma entre triliões de estrelas da nossa galáxia, a Via Láctea, que é uma entre milhares de milhões de galáxias num universo em expansão.
Ciência e fé não são incompatíveis, de facto, a ciência descobre o como, as grandes religiões do mundo contemplam aquilo que dá sentido e propósito à vida.
A Mensagem de Cada Criatura na Harmonia da Criação
Cada ser, por mais simples que pareça, carrega uma mensagem fundamental para a harmonia do todo. A diversidade das criaturas é entendida como uma expressão da sabedoria divina, onde cada vida contribui para o equilíbrio e para a beleza intrínseca da criação.
Deus escreveu um livro estupendo, «cujas letras são representadas pela multidão de criaturas presentes no universo»” (LS, 85).
“Em cada criatura, habita o seu Espírito vivificante, que nos chama a um relacionamento com Ele” (LS, 88).
A Comunhão Universal
Todos os seres da criação estão interligadas numa comunhão universal. Esse conceito reforça a ideia de que cuidar do ambiente é cuidar uns dos outros, reconhecendo que a saúde do planeta reflete diretamente o bem-estar de toda a humanidade.
“As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: «Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida» (Sab 11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde. Quero lembrar que «Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação».” (LS, 89).
O Destino Comum dos Bens
A encíclica reforça o princípio de que os recursos naturais pertencem a todos.
Ao considerar a Terra como um património comum, o Papa Francisco convoca-nos a utilizar os bens da Terra de maneira responsável, assegurando que as necessidades presentes sejam garantidas sem hipotecar as gerações futuras.
“Hoje, crentes e não-crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto torna-se uma questão de fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte, toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspetiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos.
O princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma «regra de ouro» do comportamento social e o «primeiro princípio de toda a ordem ético-social».[João Paulo II, Carta enc. Laborem exercens] A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada. São João Paulo II lembrou esta doutrina, com grande ênfase, dizendo que «Deus deu a terra a todo o género humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém»”[Carta enc. Centesimus annus] (LS, 93).
O Olhar de Jesus
Por fim, o capítulo 2 evoca o olhar de Jesus, que nos ensina a ver a criação com compaixão e amor.
Esse olhar representa a esperança de uma reconciliação entre o ser humano e o ambiente, estimulando atitudes que promovam a justiça, a solidariedade e uma profunda interligação com todos os seres da criação.
“Jesus vivia em plena harmonia com a criação, com grande maravilha dos outros: «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Mt 8, 27). Não Se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida. Falando de Si mesmo, declarou: «Veio o Filho do Homem que come e bebe, e dizem: “Aí está um glutão e bebedor de vinho”» (Mt 11, 19). Encontrava-Se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as realidades deste mundo. Todavia, ao longo da história, estes dualismos combalidos tiveram notável influência nalguns pensadores cristãos e desfiguraram o Evangelho. Jesus trabalhava com suas mãos, entrando diariamente em contacto com matéria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de artesão” (LS 98).
“O Novo Testamento não nos fala só de Jesus terreno e da sua relação tão concreta e amorosa com o mundo; mostra-no-Lo também como ressuscitado e glorioso, presente em toda a criação com o seu domínio universal. «Foi n’Ele que aprouve a Deus fazer habitar toda a plenitude e, por Ele e para Ele, reconciliar todas as coisas (…), tanto as que estão na terra como as que estão no céu» (Cl 1, 19-20). Isto lança-nos para o fim dos tempos, quando o Filho entregar ao Pai todas as coisas «a fim de que Deus seja tudo em todos» (1 Cor 15, 28). Assim, as criaturas deste mundo já não nos aparecem como uma realidade meramente natural, porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora estão cheias da sua presença luminosa” (LS 100).
Em resumo
O capítulo 2 da Laudato Si’, “O Evangelho da Criação”, apresenta uma visão profundamente espiritual e ecológica da relação entre o ser humano e o mundo natural. A encíclica destaca que a criação é um reflexo do amor divino e que todas as criaturas possuem um valor intrínseco, interligadas em uma comunhão universal.
Ao rejeitar o antropocentrismo desordenado e propor uma ecologia integral, o Papa Francisco nos convida a uma conversão ecológica, baseada na simplicidade, na solidariedade e no respeito pelos bens comuns.
O olhar de Jesus sobre a criação inspira uma atitude de cuidado e responsabilidade, reforçando que a preservação do planeta é um dever moral e espiritual. Assim, o capítulo conclui com um apelo à ação, convocando cada pessoa a reconhecer a sua responsabilidade na construção de um mundo mais justo e sustentável.
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