Um artigo de Simone Olianti, com ilustração de Elisabetta Benfatto
É possível ter medo da luz? Normalmente temos medo da escuridão, das trevas, da sombra que habita em cada um de nós. Então, porquê temer a luz?
É uma questão que me tem vindo a incomodar desde que ouço e acompanho pessoas em situações de crise; um verdadeiro mysterium iniquitatis (mistério do mal) que nunca deixa de me perturbar, mesmo ao fim de tantos anos.
Nelson Mandela, aos 75 anos, após 26 anos de prisão injusta, proferiu um magnífico discurso por ocasião da sua tomada de posse como Presidente da República da África do Sul: “O nosso medo mais profundo não é o de sermos inoportunos. O nosso maior medo é sentirmo-nos poderosos e sem barreiras. O que nos assusta é a luz, não são as trevas…”.
A luz assusta-nos sempre que temos algo a esconder ou quando queremos caminhar nas trevas. Quem acolhe a luz, acolhe a alegria que ninguém pode arrebatar do nosso coração (cf. Jo 16,22). Pode causar surpresa a quem não conhece os Textos sagrados, que não se encontre neles, nem uma única vez, o termo “felicidade”, uma palavra tão cara à filosofia grega e ao budismo. No Novo Testamento, pelo contrário, encontra-se 75 vezes o verbo kairein (alegrar-se, regogizar-se) e, 59 vezes, o substantivo kaire (alegria, júbilo). E, não o devemos esquecer, o oposto da alegria, não é a dor, mas a tristeza: pois é possível encontrar a alegria também na dor, se ela fizer florescer a vida, se não for uma dor inútil e estéril. “A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque chegou a sua hora. Mas, quando nasce a criança, já não se lembra da tribulação, pela alegria de ter nascido um homem para o mundo” (Jo 16, 21).
Quantas pessoas sofrem as dores do parto sem poder chegar à luz? Vivendo uma vida estéril e insípida, por vezes cínica e sem alegria? É até possível acostumar-se de tal maneira à dolência, que só a ideia de experimentar um pouco de alegria já é dolorosa. Podemos acostumarmo-nos a uma vida mesquinha e sem esperança, e não querer fazer nada para sair dela.
A tristeza, quando cultivada por muito tempo, instala-se nos meandros da mente e nunca mais desaparece.
Provoca a desconfiança, que gera o desespero, ou seja, a convicção de que já não é possível encontrar um caminho rumo à alegria.
Por isso, é necessário vigiar a tristeza porque, se for cultivada demasiado tempo, corre-se o risco de ela se instalar nos meandros da mente e nunca mais desaparecer. Se a tristeza se instala no sofá da mente, inibe a esperança de que é possível encontrar um caminho rumo à alegria; não só não o torna possível, como nem sequer o torna credível. Assim, a tristeza torna-se desconfiança e a desconfiança gera desespero. No entanto, quem já provou a alegria, nunca mais a esquece. A alegria, que é um “contentamento do ser”, é suficiente em si mesma; pois é pura consciência de existir, de ser querido, desejado, amado, de não ser um erro: não estamos no mundo por engano. Se houver esta intuição do coração, tudo fica mais claro porque “as coisas obscuras tendem à clareza” (Eugenio Montale) e os olhos alegram-se ao ver o sol (Qo 11,7).
Quem provou esta alegria ainda que por momentos, que a guarde com cuidado e, se a perder nos meandros caóticos da vida, procure preservar a sua saudosa lembrança: “Se eu nunca tivesse visto o sol, teria suportado a sombra, mas a luz acrescentou ao meu deserto uma desolação inimaginável” (Emily Dickinson).
No entanto, é importante distinguir a alegria, que é um fruto maduro do Espírito, do prazer, que é uma intoxicação dos sentidos. O mundo está cheio de prazeres, mas isso não parece fazer ninguém feliz. A alegria tem outro gosto: tem o sabor perfumado do amor e da gratuidade.
Se alguém me perguntasse: conheces o segredo da felicidade? Eu responderia: não sei! A felicidade também depende de muitas circunstâncias externas: saúde, um bom emprego, uma relação afetiva que funcione, um bom salário. Mas se me perguntarem: conheces o segredo da alegria? Eu responderia: tenho uma intuição, uma experiência que me faz dizer que há um caminho que leva à alegria.
Este caminho não passa pelo desenvolvimento pessoal, nem pela consciência daquilo que somos, por mais importantes que estas coisas sejam. Este caminho passa pelas misteriosas, mas autênticas, formas do dom e da gratuidade. Mas para trilhar este caminho temos de sair da lógica cansativa da obrigação, da obrigação para com Deus e para com a vida; precisamos de nos libertar dos sentimentos de culpa. E o pior de todos os sentimentos de culpa é a culpa de existirmos e não nos sentirmos dignos, importantes, preciosos, amados. Pensar que temos que nos esforçar para ser dignos de merecer o amor que tanto desejamos de alguém que saiba que existimos e que nos dê valor.
Mas, na verdade, tudo o que somos e temos, foi-nos doado: a vida, os afetos mais queridos, a beleza deste planeta maravilhoso e frágil, a alegria de amar e ser amado. Tudo nos é dado por Aquele que nos chamou à vida. A gratuidade do dom abre-se à gratidão e ao assombro, não à lógica cansativa da obrigação (cf. S. Olianti, Diante da morte aprende a vida. Para uma ética da esperança, EMP, 2022, pp.204-205).
A maravilha é dar-se conta que em cada homem, mesmo no mais corrompido ou fragilizado, há um fragmento de Deus; em cada vida, ainda que desfigurada pelo pecado ou pela dor, há luz e beleza. Somos chamados a ser fecundos, a dar flores e frutos: só assim a vida brilha, só assim a vida pode ressurgir das cinzas da insignificância.
Nietzsche dizia que gostaria de ver no rosto dos cristãos o rosto dos ressuscitados: a alegria da vida e não a tristeza do escravo devedor! O rosto dos “malsucedidos”, daqueles que anseiam pelo Céu porque têm medo de viver plenamente na Terra.
Precisamos aprender a cansativa e humilde arte de nos amarmos a nós mesmos, na esperança tenaz e paciente da própria realização que só pode ser encontrada arriscando e amadurecendo as escolhas que dão sentido e gosto à vida.
Precisamos aprender a cansativa e humilde arte de nos amarmos a nós mesmos, que não é centrar a atenção sobre nós próprios, mas esquecer o ego para trazer à superfície a parte mais verdadeira e bonita de nós mesmos. Buscar a alegria como o cão fareja a presa é ousar a coragem da esperança, a paixão do possível que pode ser encontrada onde menos se espera, na esperança tenaz e paciente da própria realização que só pode ser encontrada arriscando e amadurecendo as escolhas que dão sentido e gosto à vida.
Mas temos que dar um passo em frente, caminhar, ainda que no escuro, porque no caminho da esperança só se avança caminhando, como Abraão, que na sua velhice estéril, confiou em Deus e partiu para uma terra que não conhecia, ousando a coragem da esperança.
“Bastaria um passo e a minha profunda miséria seria abençoada” (Rainer M. Rilke). É o passo da confiança que abre a esperança ao coração e ilumina o caminho. Não mente Aquele que nos prometeu: “Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11).
Foto da capa: Tenho medo de ser feliz. Ilustração de Elisabetta Benfatto, messaggero di sant’Antonio